Prioridades
Semana que vem faço prova. Pois
é, menina, aquela história de que voltei para a faculdade, 20 anos depois de me formar,
continua sendo escrita. Caminho para a metade do terceiro semestre, o que
significa que quase um ano e meio já se passou, desde que fui aprovada na
terceira chamada do vestibular. E sigo apenas por motivos de... bem, não existe
a possibilidade de desistir, eu acho. Este é um compromisso assumido pela minha
eu do passado, bastante aguardado por quem vou ser no futuro, então aqui no
meio entre essas duas inacreditáveis versões (no sentido de serem mais
otimistas e infinitamente mais confiantes que a eu de agora) só me resta mesmo prosseguir,
manter o combinado lá de trás, a esperança lá da frente, enfim. Nem tudo na
vida a gente escolhe, concorda?
Mas algumas coisas, por sorte, dá para escolher. Por exemplo: escrever uma crônica exatamente no momento em que eu deveria estar estudando. O que possivelmente representa a forma mais sofisticada de procrastinação que já desenvolvi. Mas antes de fazer isso, saiba que já fiz todo o resto que poderia ser feito. Para se ter uma ideia, faz mais de uma semana que não fica nem uma colher suja na pia da cozinha porque eu imediatamente encontro tempo até para isso. Até para lavar louça, que é sempre uma atividade que deixo por último de tudo, depois até do que realmente acho chato.
E escrever é maravilhoso, amo, me sinto realmente voando quando faço isso, me afastando a cada letra mais e mais de mim, bem longe da minha cabeça, dos meus pensamentos que me afugentam, incansáveis, imparáveis, desagradáveis até umas horas. E se parei de escrever nos últimos meses para estudar e agora escrevo para justamente não fazer o que devo, você pode imaginar minha situação: rendida pela culpa de que poderia estar estudando, mas tentando entender aqui por que não faço isso enquanto escrevo, o que naturalmente exige que eu continue sem estudar.
A minha desculpa mais fácil é sempre a autossabotagem. Acredito que porque aquele papo de que tem sempre um anjinho e um diabinho nos aconselhando funcione de outro jeito comigo. Aqui, a sensação que tenho é que a diabinha sou eu mesma, não me dou paz nem dormindo, é impressionante. E os 50% que representariam a anjinha, sei lá, servi num banquete quando ainda comia pão. E consumia derivados de leite.
Ou seja, não existe equilíbrio. Existe eu e existe outra eu, que também sou eu, e que ao que tudo indica foi contratada exclusivamente para me convencer a fazer exatamente o contrário do que eu deveria. E ela é muito boa no que faz, a bicha é astuta. Porque ela não diz simplesmente “psiu, ei, coisinha, não estuda não”. Não, isso seria fácil demais. Essa eu trabalha com argumentos. Ela diz, com a voz mansa, coisas como “você está cansada”, “trabalhou tanto essa semana”, “é só uma crônica”. E ainda apela, falando “bobagem, garota, você precisa de um pouco de tempo para você”, “depois estuda, relaxa, vem cá”. Perigosamente sagaz. E a outra eu? Presa fácil.
E esse “depois” que a capeta joga na roda é uma entidade maravilhosa que me acompanha há umas três décadas, pelo menos. É uma espécie de lugar mágico onde tudo o que eu não quero fazer agora se resolve sozinho, sem esforço, sem culpa e, de preferência, com excelentes resultados, claro. O problema é que ele nunca vem sozinho, né. O “depois” vem sempre acompanhado daquela sensação terrível de urgência, gritando “agora você se fodeu”.
E isso com certeza é o que mais me impressiona nessa aptidão que tenho de postergar as coisas: eu não deixo de fazer isso ou aquilo porque não sei que são importantes. Eu sei que são. Sei bem. Sei enquanto não faço tanto quanto sei enquanto faço outra coisa. Sei até enquanto penso que deveria estar fazendo. Sei, inclusive, enquanto escrevo esta frase. E acrescento este ponto: . Mas não faço mesmo assim, sigo o baile, e no final, de algum jeito torto que não entendo bem, acaba que dá certo. Sem saber como seriam as outras realidades que jamais irão existir, diria até que nem estou indo tão mal.
E essa talvez seja a pior coisa que poderia acontecer comigo. Porque enquanto der certo, a diabinha vai continuar tendo bons argumentos. E eu, como sempre, vou achar que depois vejo isso.
Semana que vem faço prova... e agora preciso estudar.
Mas algumas coisas, por sorte, dá para escolher. Por exemplo: escrever uma crônica exatamente no momento em que eu deveria estar estudando. O que possivelmente representa a forma mais sofisticada de procrastinação que já desenvolvi. Mas antes de fazer isso, saiba que já fiz todo o resto que poderia ser feito. Para se ter uma ideia, faz mais de uma semana que não fica nem uma colher suja na pia da cozinha porque eu imediatamente encontro tempo até para isso. Até para lavar louça, que é sempre uma atividade que deixo por último de tudo, depois até do que realmente acho chato.
E escrever é maravilhoso, amo, me sinto realmente voando quando faço isso, me afastando a cada letra mais e mais de mim, bem longe da minha cabeça, dos meus pensamentos que me afugentam, incansáveis, imparáveis, desagradáveis até umas horas. E se parei de escrever nos últimos meses para estudar e agora escrevo para justamente não fazer o que devo, você pode imaginar minha situação: rendida pela culpa de que poderia estar estudando, mas tentando entender aqui por que não faço isso enquanto escrevo, o que naturalmente exige que eu continue sem estudar.
A minha desculpa mais fácil é sempre a autossabotagem. Acredito que porque aquele papo de que tem sempre um anjinho e um diabinho nos aconselhando funcione de outro jeito comigo. Aqui, a sensação que tenho é que a diabinha sou eu mesma, não me dou paz nem dormindo, é impressionante. E os 50% que representariam a anjinha, sei lá, servi num banquete quando ainda comia pão. E consumia derivados de leite.
Ou seja, não existe equilíbrio. Existe eu e existe outra eu, que também sou eu, e que ao que tudo indica foi contratada exclusivamente para me convencer a fazer exatamente o contrário do que eu deveria. E ela é muito boa no que faz, a bicha é astuta. Porque ela não diz simplesmente “psiu, ei, coisinha, não estuda não”. Não, isso seria fácil demais. Essa eu trabalha com argumentos. Ela diz, com a voz mansa, coisas como “você está cansada”, “trabalhou tanto essa semana”, “é só uma crônica”. E ainda apela, falando “bobagem, garota, você precisa de um pouco de tempo para você”, “depois estuda, relaxa, vem cá”. Perigosamente sagaz. E a outra eu? Presa fácil.
E esse “depois” que a capeta joga na roda é uma entidade maravilhosa que me acompanha há umas três décadas, pelo menos. É uma espécie de lugar mágico onde tudo o que eu não quero fazer agora se resolve sozinho, sem esforço, sem culpa e, de preferência, com excelentes resultados, claro. O problema é que ele nunca vem sozinho, né. O “depois” vem sempre acompanhado daquela sensação terrível de urgência, gritando “agora você se fodeu”.
E isso com certeza é o que mais me impressiona nessa aptidão que tenho de postergar as coisas: eu não deixo de fazer isso ou aquilo porque não sei que são importantes. Eu sei que são. Sei bem. Sei enquanto não faço tanto quanto sei enquanto faço outra coisa. Sei até enquanto penso que deveria estar fazendo. Sei, inclusive, enquanto escrevo esta frase. E acrescento este ponto: . Mas não faço mesmo assim, sigo o baile, e no final, de algum jeito torto que não entendo bem, acaba que dá certo. Sem saber como seriam as outras realidades que jamais irão existir, diria até que nem estou indo tão mal.
E essa talvez seja a pior coisa que poderia acontecer comigo. Porque enquanto der certo, a diabinha vai continuar tendo bons argumentos. E eu, como sempre, vou achar que depois vejo isso.
Semana que vem faço prova... e agora preciso estudar.