O Natal dos encontros inesperados
Mayara
sempre acreditou que o mês de dezembro tem o poder de transformar as pessoas. Conhecia,
é claro, aquela concepção de que em geral todos ficam mais bondosos e
benevolentes nesta época, mas para ela o problema mesmo era a correria
frenética nas lojas enfeitadas – uma maratona que destrambelhava boa parte da
população. Muitos embarcavam em seu carro aparentando cansaço e a maioria fazia
questão de revelar há quanto tempo estava batendo perna atrás de presentes e
preparativos para a grande noite natalina. Aí ela, que se dizia apenas uma
reles motorista de aplicativo, esforçava-se para fingir interesse no assunto e
esboçar empatia sempre que o tema era este. E dificilmente o assunto era outro nos
dias que antecediam o Natal.
Para
completar, dezembro ainda tinha aquela mania irritante de vestir a cidade
inteira de entusiasmo (o tipo de brilho que Mayara era incapaz de acompanhar),
o que só servia para deixar os motoristas ainda mais lentos, apreciando demais
o que, para ela, era só trânsito (afinal, luzinha de Natal nem deveria ser
considerada atração turística). Nesta época, as praças exibiam árvores
gigantescas que piscavam, pulsantes, parecendo ter vida própria; as lojas
tocavam versões diferentes da mesma música natalina (todas igualmente
desafinadas) e os motoqueiros ainda mais impacientes buzinavam no trânsito
caótico, numa tentativa inútil de acelerar o tempo. Nas poucas pausas entre uma
corrida e outra, ela observava famílias carregando sacolas enormes, crianças
discutindo por enfeites e casais brigando por listas de presentes e itens da
ceia (as uvas passas eram sempre as vilãs). Era um espetáculo anual, repetitivo
e previsível. E, mesmo assim, de alguma maneira, dezembro sempre dava um jeito
de surpreendê-la.
É
válido dizer que Mayara não fazia muita questão do Natal. Para ela, a data não
passava de um grande evento comercial que, ironicamente, ainda lhe rendia menos
corridas por causa do período de férias, num tipo de lembrete luminoso (e
barulhento) de que nem todo mundo sai ganhando em dezembro.
Mesmo
assim, lá estava ela, presa no fluxo interminável de carros que avançavam
devagar demais pela Avenida Paulista, apreciando cada lâmpada piscante como uma
obra-prima que precisasse ser contemplada. Aquele sem dúvida era o pior ponto
da cidade nesta época do ano, uma vez que a via transformava-se num corredor
ornamental que ocupava mais espaço do que deveria. Os enfeites gigantes, com
suas renas metálicas, túneis de luz e estruturas que pareciam ter sido montadas
por alguém que nunca ouviu falar em mobilidade urbana, roubavam faixas inteiras
de tráfego. Resultado: carros espremidos, ônibus disputando centímetros e
motoristas reduzindo a velocidade só para gravar vídeos dos pisca-piscas, como
se estivessem diante de um monumento histórico em vez de apenas mais uma
decoração natalina patrocinada por um banco qualquer.
Mayara
suspirou, tamborilando os dedos no volante, numa tentativa de espanar a
impaciência. O dia estava quente, abafado, quase pegajoso, e o ar-condicionado
parecia querer desistir, na potência máxima. As luzes vermelhas dos freios dos
automóveis à sua frente formavam uma fileira contínua, a perder de vista, e um
alto-falante na calçada, chato, tocava pela enésima vez a mesma música natalina
da Simone, desta vez numa versão exagerada, com sinos, coro infantil e uma
flauta que soava como um pedido de socorro.
“É
isso”, pensou. “O Natal das pessoas é a minha penitência anual”.
Ela
estava prestes a descer a Consolação quando o aplicativo apitou com uma nova
corrida, piscando a tela do celular preso no painel. Mayara franziu a testa; o
ponto de partida era uma rua estreitinha, quase escondida, numa viela que
jurava nunca ter visto antes – logo ela, que conhecia São Paulo como a palma da
própria mão. Mas não se surpreendeu porque era o tipo de lugar que, em
dezembro, parecia mesmo surgir do nada; a cidade notadamente adorava inventar
caminhos extras só para complicar ainda mais seu serviço.
A
ruazinha ficava numa área apertada na região nobre da Bela Vista e parecia ter
sido encaixada entre os prédios só para cumprir tabela no planejamento urbano, destoando-se
completamente do restante do cenário metropolitano. O chão era irregular,
remendado em diferentes tons de asfalto, e as paredes grafitadas coloridas refletiam
a luz das lojas enfeitadas parecendo neon. Os postes carregavam fios tão baixos
que mais um pouco encostariam no teto do carro e enquanto avançava, bem
devagar, Mayara ficou com a sensação de que mais um centímetro para o lado e
seu retrovisor iria embora, de tão estreito que era o local. Ao abaixar o
volume do som para se concentrar melhor, viu que um gato preto a observava de
cima de um muro, imóvel, com olhos bem brilhantes voltados em sua direção.
Mas
não era só isso. O ar parecia mais fresco ali do que no quarteirão de cima, aparentando
ter um microclima próprio, mais próximo do Polo Norte do que do verão tropical brasileiro.
Uma brisa leve atravessava o ambiente, contrastando com o calor úmido da cidade.
Ao correr pela lateral do carro, o vento fez os enfeites pendurados em varais
improvisados balançarem todos ao mesmo tempo, num balé perfeito. Uma música
natalina distante tocava de maneira abafada, mas a melodia parecia… lenta
demais, numa cadência de disco rodando na velocidade errada. Até o tempo parecia
passar mais devagar ali, livre da pressa natalina paulistana.
Enquanto
admirava o cenário inusitado e diferenciado, Mayara notou a presença repentina de
um aroma diferente, um perfume doce, quase amadeirado, que não reconheceu de
onde vinha e que sumiu quando tentou identificá-lo. Havia notas que lembravam açúcar
e canela, mas misturadas a algo fresco, como terra molhada depois da chuva (o
que era impossível, visto que não chovia há dias). Do nada, um toque cítrico se
misturou ao cheiro, lembrando o aroma de uma laranja recém-descascada, desaparecendo
no instante seguinte.
De
alguma forma que não saberia explicar, a ruazinha respirava (ou assim parecia)
e cada inspiração dava a impressão de criar um detalhe novo e levemente fora do
lugar, numa transformação contínua que emendava as cenas com algum tipo de barbante
mágico enfeitado. Mayara viu um fio de luz piscar onde, segundos antes, parecia
apagado; uma sombra mudou de posição sem que nada tivesse se movido; um leve
arrastar (talvez folhas, talvez papel) farfalhou atrás do carro, embora a rua
estivesse vazia. Uma situação típica de filme de Natal, que ela se recusava
fortemente a assistir justamente devido ao excesso de ficção exagerada que
essas obras contam.
Mayara
reduziu ainda mais a velocidade, quase parando, ampliando a tela do celular
para ver o número indicado no aplicativo. Foi então que avistou por cima dos
óculos escuros uma figura parada bem na esquina: uma mulher pequena, franzina, usando
um gorro verde exageradamente pontudo e uma jaqueta cintilante que parecia ter
saído de uma vitrine temática. A princípio, pensou que fosse alguma ação
promocional de loja (afinal, dezembro costumava produzir esse tipo de criatura
em massa), mas a jovem tinha um ar tão concentrado, tão deslocado e ao mesmo
tempo tão… urgente, que fez Mayara franzir o cenho, unindo as sobrancelhas. Era
cedo demais para lidar com fantasias, pensou, mas tarde demais para recusar a
corrida.
Quando
a duende entrou no carro, suave como o orvalho carregado na brisa da manhã,
Mayara imediatamente reconheceu o cheiro que invadira o automóvel instantes
atrás. Mas o perfume da passageira identificada como Jasmim era ainda mais
penetrante e curiosamente diferente, com camadas que pareciam mudar conforme
ela respirava, com seus movimentos liberando notas novas, impossíveis de classificar.
Antes mesmo que a cumprimentasse, percebeu que a moça, que usava um vestido
verde cheio de sinos que tilintavam a cada gesto, definitivamente não era fruto
do esgotamento natalino coletivo.
Havia
algo em Jasmim que escapava completamente da lógica: o brilho quase
imperceptível no tecido de seu vestido, que não parecia refletir a luz, mas
emiti-la; a forma como os sinos minúsculos presos à saia rodada tilintavam em
um ritmo que não seguia os movimentos de seu corpo; a maquiagem que fazia seu
rosto se assemelhar ao de uma boneca e, principalmente, a tensão silenciosa em
seu olhar, de quem sabia que estava atrasada para um compromisso importante que
não podia, de forma alguma, perder.
A
garota deslizou para o banco traseiro com o semblante de quem carrega uma
missão secreta e, antes mesmo que Mayara confirmasse o destino, pediu, com a
voz musical:
– Por
favor, moça, preciso ir até o Cândido Fontoura. Se der para acelerar… o Natal
depende disso.
Mayara
assentiu com a cabeça, encarando o reflexo das orelhas pontudas no retrovisor. Percebeu
que não eram de plástico barato. E nem parecia uma fantasia improvisada. A
duende (ou o que quer que fosse) acomodou um envelope no banco e uma caixa
dourada no colo, deixando escapar um suspiro que parecia pesar mais do que o fim
de ano inteiro.
“Certo”,
Mayara pensou, confirmando o endereço de destino no GPS do celular. O percurso de
carro até o Hospital Municipal Infantil era de menos de 5 km, perfeitamente
possível de ser feito a pé, em trajes e dias normais, mas já tinha passado da
fase de julgar o quanto as pessoas se recusavam a caminhar numa cidade grande
como São Paulo. Além do mais, em épocas de “vacas magras”, toda e qualquer
corrida era sempre bem-vinda, até mesmo as que aparentemente serviam apenas
para mudá-la de rota.
Apesar
da estranheza, Mayara não fez perguntas num primeiro momento. Preferiu
concentrar-se no trânsito, que começou a destravar assim que deixaram a viela –
como se as ruas sentissem a presença da pequena criatura no banco traseiro e
abrissem caminho para ela.
Logo
percebeu que aquilo não era aparentemente fruto de simples sorte, quando observou
que os semáforos passaram a mudar para o verde antes mesmo que se aproximassem.
As buzinas, que um minuto antes ecoavam estridentes de todos os lados, pareciam
agora amortecidas, com o volume abaixado, junto dos outros sons da cidade. E
para completar, a temperatura dentro do carro passou a oscilar suavemente, ora
refrescando a nuca de Mayara, ora aquecendo suas mãos no volante, acompanhando
o ritmo lento da respiração de Jasmim, no banco de trás.
Mayara
reparou que até o relógio do painel, sempre tão sincronizado, passou a marcar
minutos que não combinavam com a distância percorrida e com o horário previsto
de chegada. E, se não bastasse, a cada curva que o carro fazia, um leve
tilintar dos sinos do vestido da passageira fazia os postes das ruas piscarem
em resposta. De maneira sutil, mas no exato compasso do som, a cidade reagia parecendo
envolta num tipo de dança em que ninguém, além de Jasmim, era capaz de
contemplar. E bailar.
Pelo
retrovisor, Mayara a observou apertar a caixa dourada contra o peito, os dedos
envoltos em luvas rendadas que pareciam delicadas demais para a vida real. Ela
toda parecia de outra dimensão, para ser sincera, vinda de algum lugar em que
só existe bondade ou algo parecido. Assemelhava-se de verdade a um ser
encantado, meio deslocado do mundo concreto.
– É
presente? – Mayara arriscou, apontando com os olhos para a caixa dourada, pelo
retrovisor. Perguntou mais para quebrar o silêncio do que por curiosidade, de
fato.
Antes
de responder, Jasmim hesitou por um instante, longo o suficiente para que
Mayara percebesse.
– Não
exatamente… – ela então fala, a voz acompanhada pelo aroma de seu perfume, que
se intensificou e suavizou no fim da frase – É algo que precisa chegar às mãos
certas antes do pôr do sol.
A
resposta fez Mayara querer virar os olhos, mas controlou para não transparecer
nenhuma careta no espelho. “Antes do pôr do sol” era exatamente o tipo de frase
que ela evitava em histórias de Natal, mas antes que pudesse fazer outro
comentário, o celular vibrou com uma notificação de rota e ela desviou o olhar,
focando novamente no caminho.
A
duende, atrás dela, afrouxou o braço ao redor da caixa, parecendo aliviada por
dividir parte do peso (fosse literal ou não). Por um momento, o brilho dourado emanado
pareceu se intensificar, mas Mayara culpou o reflexo das luzes ao redor delas.
Era dezembro, tudo brilhava demais. E magia só acontece no cinema.
Mas o
fato é que Mayara não sabia mais para onde olhar: para a rua, que parecia se
abrir inteira diante delas ou para o retrovisor, onde Jasmim mantinha aquele ar
sério demais para alguém vestida de verde brilhante.
– Você
costuma andar sempre assim… tão arrumada? – arriscou, esforçando-se para
aplicar na voz um tom descontraído.
Jasmim
desviou o olhar da caixa e ofereceu um sorriso rápido, quase tímido, ao
encará-la brevemente.
– Só
em serviço.
Mayara
abriu a boca para perguntar o que exatamente era “serviço” no currículo de uma
duende em dezembro, mas a resposta morreu na garganta quando percebeu um
detalhe: os sinos do vestido dela não batiam uns nos outros. Eles se moviam com
a naturalidade de algo que tinha vida e vontade próprias, tocando notas curtas
e espaçadas, que coincidiam com os carros à frente, acelerando no momento certo,
numa sinfonia perfeita. Quase mágica.
–
Certo – Mayara murmurou, apertando o volante. Limpou a garganta, antes de
continuar – Me diz uma coisa, só para eu entender: isso aí é algum tipo de...
tecnologia? – questionou, apontando com a cabeça para o vestido dela.
– Não
exatamente – a passageira rebateu, forçando Mayara a mais uma vez não revirar
os olhos diante da resposta evasiva.
Jasmim
respondia sempre com “não exatamente”. Nada era exatamente coisa nenhuma desde
que entrara no carro, mas Mayara era forjada nas microrrelações diárias, quase
nunca conseguia as informações completas das pessoas que transportava – e quase
nunca se importava com isso. Por este motivo, se calou. Preferiu não ter
nenhuma resposta a contar com dados incompletos que só a deixariam ainda mais
intrigada e curiosa, pensando naquilo o resto do mês.
O
problema é que o trânsito fluido não a deixou mais tranquila. Pelo contrário; a
cada quadra, parecia que alguma coisa no ar mudava de densidade, num atravessar
de camadas invisíveis de… sei lá, dezembro concentrado. E o mais estranho é que
Jasmim parecia perceber cada uma delas. A duende erguia um pouco o rosto,
franzia o nariz e os sinos respondiam com um “tlim” específico, num código
Morse natalino. A motorista tentou ignorar, mas não conseguiu deixar de pensar
que estava carregando no banco de trás algo que não devia estar circulando em
vias públicas sem licença especial.
Quando
estavam a poucos metros do destino, no último cruzamento, Mayara notou alguns olhares
curiosos dos pedestres lá fora, que aparentavam ver mais do que ela conseguia
enxergar. Por exemplo, um garoto apontou diretamente para o vidro traseiro e
sorriu, encantado, logo depois uma senhora fez o sinal da cruz e até um
cachorro começou a uivar, mas num ritmo que combinava com o tilintar dos sinos
do vestido da duende.
–
Estamos chegando – Jasmim anunciou, com a serenidade de quem comenta a previsão
do tempo. Ela apoiou a caixa no colo com mais cuidado, preparando-se para algum
tipo de transição importante. Foi então que Mayara notou: o brilho de sua roupa
de duende parecia ainda mais forte agora, refletindo luz de lugar nenhum. No
mesmo instante, o retrovisor começou a embaçar nas bordas.
Mayara
engoliu seco. Ao encostar o carro na área de desembarque do hospital, imaginou
que algo explodiria, viraria fumaça ou até mesmo que um portal encantado se
abriria diante de seus incrédulos e cansados olhos. Mas a única coisa que
aconteceu de verdade foi o ar-condicionado do carro que, após um chiado,
decidiu simplesmente parar de funcionar.
O
silêncio que imediatamente se instalou dentro do veículo foi seco, quase
sólido. Não havia buzinas, não havia pressa, não havia sequer aquele típico
burburinho hospitalar que Mayara esperava encontrar do lado de fora. A sensação
que teve, embora irracional, foi a de que o mundo havia entrado em pausa. Ou
que, sem querer, tinha deslizado para uma versão ligeiramente deslocada da
realidade.
Ela
desviou o olhar para Jasmim, desta vez encarando-a por cima do ombro, procurando
algum comentário espirituoso, alguma explicação absurda que fosse, mas a mulher
permaneceu quieta, observando a entrada do hospital com uma expressão que
misturava saudade, orgulho e um tipo peculiar de serenidade que Mayara não soube
interpretar. Era bonito, mas também inquietante, como olhar para uma vela
prestes a apagar e perceber que a chama nunca teme o escuro.
Do
lado de fora, um sopro agitou brevemente a barra do vestido verde de Jasmim,
fazendo os pequenos sinos costurados no tecido tilintarem baixinho. Foi um som
tão suave que Mayara se perguntou se realmente tinha acontecido ou se era só
mais uma dessas sensações estranhas que a presença da duende provocava.
Sem
saber onde colocar as mãos, tentou religar o ar-condicionado, ajustou o banco, mexeu
novamente no ar-condicionado, que não respondeu. Tudo para disfarçar o fato de
que, por algum motivo que não entendia, estava nervosa. “É só uma carona”, ela
repetia mentalmente. “Pessoas fantasiadas (ou o que quer que Jasmim fosse)
também usam Uber. Magia só existe na ficção”.
No
banco de trás, Jasmim não se movia. Apenas respirava devagar, aguardando o
instante exato para uma despedida que já estava escrita em algum lugar. Ou aguardava
simplesmente o momento certo para mudar de cena.
Finalmente,
após alguns segundos, a mulher virou o rosto para Mayara e sorriu. Seu sorriso foi
tão gentil que atravessou a desconfiança da motorista, acalmando inteiramente a
apreensão que apertava seu coração.
–
Agradeço muito pela sua carona, Mayara – Jasmim fala, destravando o cinto de
segurança e liberando uma nova onda de seu perfume – Desejo a você um feliz
Natal e uma ótima vida.
Ela
abriu a porta e uma lufada de ar quente entrou junto com o sol refletido no
asfalto, absorvendo o aroma de seu perfume. A diferença de atmosfera foi quase
agressiva, com o ar lá fora abafado e pegajoso, sufocado pelo calor do verão,
invadindo o interior do automóvel sem ser convidado. Carros passavam distantes
na avenida, zunindo sob o sol que também queimava o chão, mas a quietude ao
redor conseguia ser ainda mais incômoda que o mormaço irrespirável. Era um
silêncio tão intenso que contrastava com o clima natalino, mas combinava com a
luz fria da recepção do Hospital Municipal, tão oposta às luzes piscantes e
quentes da cidade que agora parecia pertencer a outro país, outro hemisfério,
outro dezembro.
Jasmim
colocou os dois pés na rua ao mesmo tempo, com firmeza, segurando a caixa
dourada como uma extensão do próprio corpo. Cada passo decidido foi acompanhado
pelo tilintar suave dos sinos de seu vestido e Mayara a observou com a atenção
de quem assiste a um filme, sentindo o suor escorrer pela nuca enquanto abria os
vidros das quatro janelas. Embora o calor invadisse o interior do carro, ainda
assim não era eficiente para aquecer aquele silêncio estranho, quase duro, que
emanava da entrada do hospital e que perdurou por um longo instante.
A
porta principal do Hospital Municipal Cândido Fontoura se abriu, revelando a
recepção pálida iluminada pela luz fria da recepção. Pessoas caminhavam com
passos arrastados, como sombras cansadas, e o chiar distante de uma maca ecoava
pelo corredor e chegava até a calçada. Tudo ali tinha um tom esmaecido, parecendo
um filme antigo, em preto e cinza.
O
cheiro metálico de desinfetante misturado a suor velho criava uma névoa quase
palpável em volta do imponente imóvel, impregnando as roupas e grudando no
fundo da garganta. O ambiente parecia drenar cores, sugar brilho, transformar
tudo em uma neutralidade que beirava a exaustão. E, justamente por isso,
qualquer faísca de luz parecia destoar como um segredo milagroso perdido
naquele desbotamento.
Jasmim
avançou alguns passos e, por um instante, o mundo pareceu se contrair. A caixa
dourada reluziu discretamente entre as mãos dela, emitindo uma claridade suave,
nada vistosa, mas intensa o suficiente para desafiar o branco opaco das paredes
encardidas. Aquele brilho teimava em existir, quase insolente, trazendo consigo
uma luz capaz de acender sorrisos nos dias mais cinzentos.
Mayara
a observou se afastar, sentindo que aquele pequeno foco de luz caminhava contra
a correnteza do lugar. E, embora não fizesse sentido algum, teve a impressão de
que, onde quer que Jasmim estivesse indo, alguém ali dentro já estava prestes a
respirar um pouco melhor. Ficou alguns segundos contemplando a cena, incapaz de
desligar o motor, sentindo a cidade prender a respiração junto com ela.
Finalmente, a pequena mulher com orelhas pontudas se virou em sua direção,
olhando para trás e acenando com a mão. O gesto durou o suficiente para gravar
aquela imagem na mente de Mayara, um instante que parecia simultaneamente
pequeno e eterno.
– Vá
com cuidado – a duende disse, num sussurro quase musical, antes de desaparecer
dentro da luz pálida do hospital.
Mayara
ficou alguns segundos apenas segurando o volante, tentando processar a sensação
de ter transportado algo (ou alguém) tão fora do comum. Depois da presença
intensa de Jasmim, o silêncio agora no carro era quase ensurdecedor. Por isso,
se permitiu um momento para poder se recompor, observando o reflexo do sol no
painel, na tentativa de processar a estranheza da experiência vivida. Mas, como
sempre, o trabalho a lembrou de que a vida real não podia esperar por
contemplações mágicas, com uma nova corrida piscando na tela do celular,
apontando para um endereço que ao final a levaria para o outro lado da cidade.
–
Vamos ver se já consigo pagar meu jantar – murmurou, tentando recuperar a
postura.
O
embarque aconteceu a poucos metros de onde estava e logo Mayara se encontrou novamente
no meio do tráfego, desviando de ônibus, motociclistas e pedestres apressados
para o Natal. A nova passageira era uma senhora de idade que gostava de
conversar, o que rapidamente fez com que suas lembranças mais recentes logo se
dissipassem, dando lugar às cenas mentais que a mulher foi criando com suas
narrativas.
Em
verdade, Mayara só voltou a pensar na duende quase uma hora depois de deixá-la
no hospital, após se despedir da segunda passageira e perceber que Jasmim havia
esquecido seu envelope no banco de trás. O pequeno embrulho repousava sobre o
couro, quase implorando para ser notado, e Mayara sentiu uma pontada de
urgência ao se lembrar das palavras de Jasmim: “o Natal depende disso”.
Rapidamente,
puxou o celular do painel e, sem pensar duas vezes, tentou contato pelo número
cadastrado no perfil de Jasmim. Mas a ligação nem chegou a completar, caiu
direto na caixa postal, naquele tipo de silêncio seco que nos irrita diante das
emergências. Zangada, pressionou os lábios e tentou de novo. Nada.
Suspirando,
abriu o WhatsApp e digitou rápido: “Seu envelope ficou no meu carro”. Aí ficou
olhando para a tela por alguns segundos, na expectativa de ver os dois
risquinhos ficarem azuis. Eles não ficaram. A impaciência imediatamente subiu
pelo pescoço, quente, insistente. Mayara bloqueou e desbloqueou a tela, na
esperança boba de atualizar alguma coisa.
O
retorno veio de repente – não como uma mensagem comum, mas como aquelas
automáticas que aparecem quando alguém está com resposta rápida ativada. O
fundo era branco, simples, sem foto de perfil exibida. A mensagem dizia: “O
Natal está em movimento. Siga as luzes!”.
A
frase era genérica demais, impessoal demais. Parecia mais uma mensagem de
status do que uma resposta, propriamente dita. O que caralhos aquilo significava?
Sem
conseguir imaginar que tipo de charada era aquela, Mayara percebeu que teria
que dirigir de volta até o hospital e encontrar a duende, enquanto era tempo.
Qual era mesmo o prazo que a mulher havia relatado? Ah, sim, “antes do pôr do
sol”... Ao pensar a respeito, Mayara finalmente se permitiu revirar os olhos, em
puro desdém. Para quem não gostava de películas de Natal, ela parecia envolvida
demais numa trama natalina, correndo com seu carro atrás de uma duende pelas
ruas de SP.
O
relógio do carro mostrava que ainda tinha pouco mais de duas horas até a noite
chegar e, de cabeça, foi recalculando as rotas até o endereço final, desviando
dos pontos mais congestionados. O problema é que cada rua parecia mais lenta
que a anterior e os engarrafamentos se arrastavam por praticamente toda a
cidade. Como se não bastasse, os semáforos agora haviam decidido mudar de cor
de forma quase provocativa; de repente, o trânsito deu mostras de querer se
divertir com seu dilema, ciente da urgência do envelope no banco de trás e, por
capricho, foi enfiando vermelho até onde não cabia mais.
Mayara
levou um total de 43 minutos no percurso de volta até o hospital, com a
possibilidade de ter recebido pelo menos duas multas no caminho, ambas por
excesso de velocidade. Ao chegar ao Hospital Municipal Infantil, estacionou o
carro de maneira torta e correu até a recepção, na expectativa de rever Jasmim.
Seu coração ainda acelerado pelo trajeto parecia bater no mesmo ritmo das setas
do veículo que, na pressa, ela se esqueceu de desligar. Entrou na recepção ofegante,
varrendo o ambiente com os olhos, como quem busca uma flor viva em meio ao
deserto árido.
Mas o
que encontrou foi o local praticamente vazio, preenchido apenas pelo som da
televisão da recepção, que reproduzia uma reportagem sobre compras de Natal,
com músicas animadas que destoavam do cheiro de desinfetante e do ar pesado do ambiente.
Mayara não encontrou por ali nenhuma pequena figura verde, nenhum tilintar de
sinos, nenhum rastro daquele perfume exótico; o que viu foi apenas um corredor
pálido mergulhado num silêncio característico, quebrado ocasionalmente pelo bipe
distante de algum monitor.
Os
poucos enfermeiros presentes caminhavam com passos mecânicos, quase
coreografados pela rotina exaustiva, sem desviar o olhar de seus prontuários.
Uma cadeira de rodas vazia permanecia encostada na parede, com uma manta puída esquecida
pendendo de um dos braços, e o enfeite natalino pendurado na coluna (um Papai
Noel feito de papelão) parecia observá-la do alto com um sorriso desbotado. Até
a árvore de Natal improvisada no canto, feita de garrafas PET, galhos de arame
e luzes falhando, parecia pedir para ser desligada.
A
sensação que tomou conta de Mayara foi a de ter chegado tarde demais para algo
que nem sabia nomear. Sentiu que a magia tinha acabado de deixar o local, e que
ela era a única capaz de notar a ausência, já que o mundo continuava girando
exatamente igual ao que sempre foi: seco. Frio, em diversos aspectos.
Foi
então que ela percebeu que ir até o hospital não seria suficiente para
encontrar a duende. O envelope ainda precisava chegar às mãos certas, mas
Jasmim claramente não estava mais ali. Como faria para encontrá-la em meio a
uma multidão de uma cidade gigante? Cada rua equivalia a um verdadeiro labirinto
interminável e o trânsito caótico de dezembro transformava as esquinas em pontos
de desencontro. Ou seja, aquela era uma tarefa praticamente impossível, com
potencial de se transformar numa missão ainda mais difícil, considerando que
Jasmim era do tipo que não atendia ligações.
Enquanto
tentava organizar as ideias com a frustração latejando nas têmporas, o celular
vibrou dentro do bolso da calça. Ao puxar o aparelho, uma mensagem apareceu na
tela, vinda do número de Jasmim. Dizia: “Que bom que o encontrou! Precisei me
deslocar, estou na Praça do Pôr do Sol”.
Mayara
respirou fundo, num misto de alívio e preocupação. A duende não havia sumido de
vez, afinal, mas para encontrá-la de fato teria que dirigir alguns quilômetros
até onde ela estava, no bairro Alto de Pinheiros. Puxando o envelope do banco
de trás, retomou a direção, determinada a não deixar que o dia terminasse sem
que aquilo chegasse ao destino correto. Mesmo sem saber do que se tratava.
O
trânsito àquela hora era intenso, típico de dezembro, mas estranhamente nada na
cena parecia comum, embora tudo fosse extremamente característico e ao mesmo
tempo familiar. Talvez porque as luzes natalinas refletiam no vidro do carro
como pequenos sinais piscando sem pressa, acompanhando seu avanço truncado
pelas avenidas enfeitadas. Não sabia dizer por que, mas havia algo no ar que
tornava aquele trajeto lento menos irritante, o que a impediu de pensar nos possíveis
malefícios provocados pelo atraso.
Mayara
observou as lanternas dos carros à sua frente cintilando como fileiras de
vaga-lumes, guiando um caminho que ela não havia escolhido. Há quanto tempo não
via um vaga-lume?
A
lembrança veio tão nítida que quase desviou sua atenção do trânsito. Ela então se
viu pelos próprios olhos de quando era pequena, correndo no quintal da casa da
avó no interior, com os pés descalços afundando na grama fria enquanto o cheiro
de café recém-coado e de bolo de fubá quente escapava pela janela baixa da
cozinha. As férias e consequentemente os natais tinham esse aroma gostoso, e
som de cigarra que ia de manhã até a noite, quando os vaga-lumes surgiam como
pequenas estrelas teimosas que voavam só para brincar com ela. Mayara estendia
as mãos e eles pousavam por um segundo, às vezes dois, iluminando seus dedos
antes de desaparecerem na noite morna. A avó dizia que, na véspera de Natal,
cada luzinha dessas carregava um pedido silencioso feito por alguém, mundo
afora. Contava ela que alguns eram atendidos, enquanto outros ficavam guardados
para mais tarde. Por motivos que não sabia explicar, os desejos da menina
Mayara nunca viravam realidade – nem no Natal, nem depois.
Assim
como o trajeto que agora não havia escolhido, no passado, Mayara também tomou
um rumo que não foi exatamente planejado, quando percebeu, talvez cedo demais,
que a magia era incapaz de chegar até ela. Foi essa constatação silenciosa que
a obrigou a fazer o que poucas crianças têm coragem: ir atrás de seus sonhos
por conta própria, mesmo que isso significasse endurecer e ter que sacrificar o
encanto da infância.
Mas
longe de sentir-se atirada no fundo de seus dramas pessoais, havia algo naquele
entrelaçar do presente com o passado que fazia ecoar uma parte antiga dela, um
pedaço importante que julgava ter abandonado, junto com sua meninice. Incapaz
de conter um sorriso, Mayara teve a impressão de que as lanternas vermelhas à
sua frente começaram a piscar no mesmo compasso daquela lembrança distante. Por
um instante, pareceu-lhe ela própria lhe estendia a mão através da cidade,
tentando alcançá-la pela via da memória.
Avançando
alguns metros na avenida lotada, a cidade pareceu repentinamente mudar de
textura ao seu redor. As luzes refletidas no para-brisa tornaram-se mais
suaves, quase líquidas, escorrendo pelo vidro, inclusive no lado de dentro. O
brilho do dia, antes duro e direto, espalhou-se como se tivesse sido passado
por um filtro de Instagram, o que fez com que os reflexos aparentassem estar
mais macios, ondulados, de um jeito que fez parecer que o ar estava derretendo.
As fachadas dos prédios vibravam numa cintilação leitosa e sombras inexistentes
passaram a se mover como pequenos cardumes luminosos acompanhando o carro. Havia
algo em tudo aquilo que não podia ser simplesmente coincidência, mas também não
era nada totalmente compreensível. A sensação que Mayara tinha era a de
resgate. Dela com ela mesma.
Naquele
ponto, já podia ver os prédios ao redor da Praça do Pôr do Sol se aproximando,
quando tudo foi interrompido de forma brutal. O carro caiu num buraco com um
solavanco seco e o impacto duro imediatamente puxou o volante para o lado, no
mesmo segundo em que o cheiro de borracha queimada invadiu o painel. Um estalo
metálico ecoou até que ela parasse – tra, tra, tra, tra, tra. Pelo retrovisor,
viu o pneu estourado e o coração disparou.
Apesar
de buzinar e sinalizar com o braço para avisar os carros que vinham atrás, o
trânsito seguia pesado e impaciente na Avenida dos Semaneiros. O calor do fim
de tarde tornava o ambiente ainda mais hostil, o tempo parecia escorrer entre
os dedos e o envelope no banco praticamente pulsava, lembrando-lhe da urgência
de Jasmim.
Mayara
respirou fundo, puxou o freio de mão e abriu a porta com cuidado, encarando o
carro parado no meio da via. Cada minuto perdido pesava, mas ela sabia que não
poderia arriscar de danificar o veículo por causa de um envelope de duende. Um
suspiro profundo e decidido lhe escapou ao refletir que seria necessário trocar
o pneu rapidamente e seguir adiante, custe o que custasse.
Enquanto
contornava o veículo para abrir o porta-malas e pegar o triângulo de
sinalização, refletiu que o ideal mesmo seria empurrar o carro até o
acostamento, o que a fez pensar que aquele era o momento perfeito para um
“milagre de Natal” acontecer. Mas Mayara sabia muito bem que as pessoas estavam
cada vez mais egoístas e fechadas em seu próprio mundinho, e dificilmente
alguém pararia o trajeto só para socorrê-la, ainda que uma quantidade
significativa de motoristas tenha buzinado ao passar por ela, reclamando do
transtorno provocado.
Foi
então que uma motoqueira se aproximou, buzinando como se dissesse algo que
Mayara de imediato não conseguiu entender. A mulher tinha um gorrinho de Mamãe
Noel preso no capacete, além de adesivos de renas e estrelas, toda temática, e
vestia aquelas roupas impermeáveis, apesar de fazer sol. Com um aceno rápido, levantou
a viseira e ofereceu socorro, tendo apenas os olhos visíveis e a voz abafada
pelo equipamento de segurança:
–
Precisa de uma mão aí? Peraí, eu vou te dar uma força – disse, sem esperar por
uma resposta.
Mayara
hesitou, mas imediatamente percebeu que não tinha muitas opções a não ser
aceitar a ajuda. Acenando com a cabeça, viu a mulher conduzir a moto até a
faixa ao lado, bloqueando o trânsito com o próprio corpo e acelerando para os
carros que insistiam em querer passar. Em poucos instantes, chegaram juntas no
acostamento, sem muitos transtornos.
Antes
de iniciar a troca do pneu, provavelmente acreditando ser uma tarefa que Mayara
não sabia desempenhar, a motoqueira puxou o zíper do macacão, para não sujar a
roupa. Ao tirar o capacete, revelou ter metade da cabeça raspada.
Com as
sobrancelhas arqueadas de surpresa ao ver o visual ousado da mulher, Mayara não
disse nada porque ela logo sumiu de vista, ao se agachar ao lado do carro,
tirando o pneu rasgado.
Numa
destreza e eficiência que impressionaram, a motoqueira subiu o macaco e desmontou
tudo em poucos movimentos. Próximo a elas, o trânsito continuava a rodar
lentamente e de maneira ruidosa, mas o gesto inesperado de ajuda (que além de
tudo era super ágil) deu a Mayara uma nova dose de esperança. Talvez ainda
conseguisse chegar a tempo até o local em que Jasmim estava, não muito longe
dali.
– Nossa,
não sei nem como te agradecer, eu ia bem trocar esse pneu no meio da via e
levaria o triplo do tempo. Que sorte que você passou por aqui bem na hora!
– E
olha que essa região nem faz parte da minha rota, hein. Estou achando que foi
sorte mesmo – a mulher responde, de maneira descontraída, encarando-a por dois
segundos, com o sorriso escondido no olhar.
–
Sério?
– Não,
não, estou só brincando com você – a motoqueira ri, com duas covinhas se
destacando nas bochechas, iluminando o rosto bronzeado pelo sol e os filetes de
sardas ao redor do nariz – Passo aqui todos os dias, pelo menos umas três vezes,
faz parte da minha rota. Sempre vejo muita gente perder o pneu naquele buraco –
ela aponta com a cabeça para o algoz espontâneo de Mayara, que agora teria que
desembolsar alguns reais na borracharia.
– Isso
porque eu estava de olho, bem atenta... – Mayara resmunga, lamentando o atraso
que o contratempo provocaria.
– Tudo
bem, essas coisas acontecem. Podia ser pior, veja por esse lado. Já pensou se
em vez de não ver o buraco você não vê, sei lá, uma motoqueira bonitona bem na
sua frente?
– É...
– Mayara volta a resmungar, sem perceber que estava sendo xavecada – Ai, é que
parece que sempre que a pressa aperta, o tempo corre contra a gente, né? – ela
diz, agachando-se ao lado da mulher, que já apertava os parafusos do estepe – É
engarrafamento que surge, é pneu que fura, é...
– Bem-vinda
ao meu clube. Eu sei bem como é correr contra o tempo – a estranha responde, com
um sorriso bonito, marcado por uma pequena cicatriz no lábio superior, que lhe
conferia um charme único. A linha de seu maxilar era bem demarcada, firme e
elegante, conferindo-lhe um ar de confiança que se refletia nos movimentos
precisos das mãos. Aliás, lindas mãos – Já fiz alguns serviços que pareciam literalmente
impossíveis – a motoqueira continuou, sem transparecer uma gota do esforço que
fazia – Mas aprendi que seguir o instinto quase sempre funciona, a própria vida
dá um jeito de se encarregar a resolver o que a gente não consegue sozinha –
ela ergue os ombros, como se não tivesse dito nada demais.
Mayara
não respondeu, mas considerou que tipo de intuição deveria seguir quando o
serviço em questão era simplesmente encontrar uma duende às vésperas do Natal e,
para piorar, numa cidade enorme como São Paulo. No entanto, preferiu não
compartilhar os pensamentos, com receio de ser taxada de maluca por alguém que havia
acabado de conhecer. E que se dependesse dela, conheceria melhor.
– Tem
contratempo que é atalho, sei lá – a mulher prosseguiu, completamente alheia ao
que se passava com Mayara. No entanto, as palavras ficaram gravitando na mente
de sua interlocutora, procurando um lugar para pousar.
Mayara
observou a motoqueira recolher as ferramentas, digerindo aquelas palavras sobre
contratempo e instinto, que insinuavam que nem todo atraso era simplesmente um azar.
Antes
de partir, ela e a aprendiz de Mamãe Noel trocaram números de telefone e se
adicionaram nas redes sociais. Ao se despedirem, as duas firmaram o compromisso
de tomarem um café juntas em algum momento oportuno, quando fosse conveniente
para ambas, ou “caso se esbarrassem novamente por acaso”. O que era impossível,
por isso elas riram.
Com um
aceno de agradecimento, Mayara retomou a direção do carro, sentindo a
adrenalina agitar novamente seu interior. Inevitavelmente, percebeu que, de
alguma forma, a breve interrupção havia alterado seu ritmo. A presença
inesperada da motoqueira (que se chamava Tania, sem acento) deixara uma
sensação incomum, uma mistura de leveza e estranhamento, após a pressa do mundo
ao redor ter dado uma pequena pausa para permitir que aquele encontro
improvável acontecesse.
Ainda
pensativa, ajeitou o envelope no banco ao lado, lembrando-se da urgência da
missão, mas com a cabeça agora um pouco mais desperta para pequenas
possibilidades inesperadas que poderiam surgir no caminho. Certamente Tania
voltaria à sua mente caso algo ocorresse.
Quando
finalmente dobrou a última esquina, Mayara se deparou com a Praça do Pôr do Sol
banhada pela prévia dourada do fim de tarde, com algumas luzes das barracas da
feirinha temporária de artesanato começando a acender. Crianças corriam entre as
árvores enfeitadas com luzinhas de cores variadas, enquanto risadas e o cheiro
de pipoca flutuava no ar. Mas, para sua imensa surpresa, ao estacionar e
percorrer cada caminho e cada canto da praça, percebeu que não havia nenhum
sinal de Jasmim por ali. Nenhum vestido verde cintilante, nenhum tilintar de
sinos, nenhum perfume amadeirado que marcasse sua presença. Nada.
O
envelope ainda repousava no banco do passageiro, pesado de urgência, e Mayara
sentiu um frio percorrer a espinha: a duende já havia partido, deixando apenas
um rastro invisível pelo ar, e o dia estava prestes a anoitecer. Foi então que
se lembrou de olhar o celular. Entre a troca do pneu e a breve conversa com uma
motoqueira cativante, nem havia pensado que poderia perder Jasmim de vista e,
ao perceber que isso havia acontecido, imaginou que talvez a duende tivesse
deixado alguma pista sobre seu novo paradeiro.
Ao
desbloquear o celular, tomada por uma pontada de impaciência, Mayara encontrou
uma nova notificação, de alguns minutos atrás. A mensagem de Jasmim era curta e
dizia: “Precisei sair, me desculpe, não consegui te esperar. Estou indo para a
feirinha beneficente que está rolando no Largo da Batata, me encontre lá”.
Mayara
piscou, surpresa e um tanto apreensiva. O novo local não era exatamente longe
de onde estava, mas o sol já começava a descer no horizonte, de maneira apressada.
Haveria tempo até que finalmente pudesse encontrá-la? Respirando fundo, ajustou
o espelho retrovisor enquanto organizava os pensamentos e colocou novamente o
carro em movimento, pisando forte no acelerador, sem precisar do apoio do GPS.
Aparentemente, sua missão natalina estava longe de terminar.
Conforme
avançava, as ruas começaram a se encher de pedestres apressados, tendas
decoradas e vendedores ambulantes, cada um disputando os centímetros de espaço
público como podiam. Mayara desviava de carros parados, motoqueiros acelerando
entre os veículos e até de crianças que corriam despreocupadas, totalmente alheias
aos perigos urbanos.
Enquanto
acelerava, sentiu novamente o perfume adocicado e amadeirado de Jasmim, quase
imperceptível, misturado à brisa que entrava pelas janelas abertas. Foi o
suficiente para que seu coração acelerasse já que, aparentemente, a duende não
estava tão distante quanto parecia.
Mas logo
Mayara viu que nem tudo seria simples porque poucos metros à frente, ao virar a
esquina, um caminhão de entrega travou a via por onde trafegava, forçando-a a
frear bruscamente e engatar a ré, enquanto motoristas impacientes buzinavam
atrás dela. O atraso parecia pequeno, mas o relógio não esperava nem um segundo
e o envelope ao seu lado lembrava-lhe constantemente da urgência de entregá-lo
à Jasmim antes que o sol se escondesse.
Frustrada,
olhou pelo espelho retrovisor para os motoristas que ainda a xingavam como se
ela tivesse alguma responsabilidade pelo caminhão parado, mas não teve tempo de
rebater porque um estrondo metálico a fez virar a cabeça instintivamente para a
esquerda. Ao seu lado, ao tentar ultrapassar o caminhão, um carro bateu de
frente com outro que vinha no sentido contrário, espalhando estilhaços de vidro
e gritos de passageiros e transeuntes. Por sorte (ou destino), ela não arriscou
a mesma manobra; caso contrário, Mayara é quem teria se envolvido na colisão.
Ao
voltar o olhar para o espelho, o que viu desta vez foram os seus próprios
olhos, arregalados de surpresa com o que parecia ser uma espécie de livramento.
De quantos outros prejuízos já teria escapado, desde o início daquela busca
pela duende?
Ao
embarcar no pensamento, Mayara se lembrou das palavras de Tania: “tem
contratempo que é atalho”. Naquele instante, a frase pareceu fazer mais sentido
do que antes e aí cada desvio e cada atraso inesperado agora parecia parte de
um mesmo fio invisível que a conduzia até Jasmim, ou algum tipo de escudo. Isso
explicaria, de certa forma, todos os pequenos contratempos que tivera até ali,
como o pneu furado, o caminhão parado e o acidente evitado. Pareceu-lhe que a
própria duende providenciava intervenções diante dos obstáculos, protegendo-a.
Apesar
do trânsito caótico, das buzinas incessantes e do ar-condicionado quebrado...
embora o dia parecesse dedicado a uma passageira com o mesmo nome da flor que
sua avó cultivava em seu jardim perfumado, de alguma forma Mayara era guiada
por alguma força, algo sobrenatural. A duende parecia ter traçado um caminho
seguro atravessando o pandemônio por onde dirigia, utilizando algum tipo de magia
que servia à missão que transportava ao seu lado. Sim, porque a esta altura,
Mayara já se convencia de que o conteúdo do envelope de fato carregava o
próprio Natal dentro dele.
Foi
então que um pensamento inesperado surgiu: seria ela digna de algo assim? Uma
simples motorista de aplicativo, cética quanto a qualquer tipo de Natal, mereceria
ser protegida e conduzida por uma força bondosa, de maneira consciente? Teria o
encanto que acompanhava Jasmim sentido seu esforço em vencer dezembro e escolhido
ajudá-la? Ela, uma “Grinch metropolitana”?
Mayara
piscou, confusa, tentando medir o peso do que sentia. Caso fosse de fato uma
interferência natalina, aquilo era justo? Ou realmente se tratava de uma mera coincidência
que a mantinha inteira até ali?
A
sensação era desconcertante porque caso fosse a primeira opção, ela claramente estaria
recebendo uma recompensa por algum comportamento exemplar do passado, já que no
presente, embora se esforçasse para sempre agir como uma “boa menina”, era
honesta em admitir que não ligava para festas, enfeites ou cânticos – e julgava
um pouco quem gostava. E, caso fosse a segunda opção, o acaso ainda parecia
travestido de milagre de Natal, de qualquer forma.
Todavia,
não terminou o raciocínio porque logo o caminhão se pôs a andar e ela pôde retomar
o caminho, tentando racionalizar a ideia de que, por mais improvável que fosse,
algo (ou alguém) cuidava para que ela pudesse chegar a tempo. E mais do que
isso: para que chegasse viva no fim do ano; ilesa, do que quer que pudesse
colocá-la em risco.
Respirando
fundo, Mayara apertou o volante, na tentativa de reorganizar os pensamentos,
que se atropelavam, uns sobre os outros. Os semáforos, as ruas, os carros e os
pedestres apressados agora pareciam pequenos figurantes, e os obstáculos eram
só algo que o dia, ou talvez a própria magia de Jasmim, impunha para medir sua
determinação. Quem sabe, o universo, em sua confusão natalina, conspirasse para
que ela não desistisse e para que o envelope chegasse às mãos certas, dentro do
horário estipulado.
E foi
justamente quando se permitiu um sorriso tímido ao distensionar os ombros que Mayara
observou o céu escurecer de repente com nuvens bem pesadas, junto de um vento molhado
que antecipou o temporal que se aproximava.
As gotas
começaram a pingar, primeiro leves, depois mais firmes, martelando a carroceria
ao som de pequenos tambores. Sem ar-condicionado e com as janelas abertas, o
interior do carro se encheu rapidamente de umidade e do cheiro típico de
asfalto quente molhado. Mayara apertou o volante com mais força, sentindo a
água escorrer pelo braço enquanto fechava os vidros tentando enxergar pelo
para-brisa parcialmente embaçado. O calor e seu nervosismo dentro do carro
aceleraram o processo, forçando-a a tirar a camiseta para passar sobre a
superfície úmida à sua frente, recuperando parcialmente a visão da via e dos
carros que se aproximavam.
Rapidamente,
o trânsito transformou-se em um emaranhado de veículos que carregavam
motoristas nervosos em meio a pedestres correndo para se proteger da chuva. Os
semáforos passaram a durar uma eternidade, porque mesmo depois que o verde
aparecia, ninguém avançava por causa do tráfego carregado. Uma cena de dias
chuvosos que Mayara conhecia bem, com pneus molhados se arrastando no asfalto e
buzinas formando uma cacofonia ao ritmo da cidade.
Mas, no meio daquela confusão climática, algo
estranho aconteceu. Entre a chuva e o barulho da cidade, Mayara percebeu um
ritmo quase imperceptível, um compasso que parecia o tilintar dos sinos do
vestido de Jasmim, levando-a à sensação de que a duende ainda estava ali, no
banco de trás, guiando-a de forma invisível, indicando o caminho que deveria
percorrer – inclusive mental, visto que apesar da tensão que a fez redobrar a
atenção, seus pensamentos no momento estavam calmos, quietos e tranquilos.
Mayara então se perguntou se, afinal, estava mesmo diante da magia do Natal ou
se apenas sua cabeça buscava conforto no impossível.
Neste instante, a cidade transformou-se em um
borrão de luzes refletidas no asfalto molhado, enquanto ela seguia em frente, a
passos de formiga, movida por uma mistura de instinto, urgência e algo que a impedia
de desistir desde que Jasmim entrara no carro, deixando para trás seu
misterioso envelope. O tempo escorria rápido, junto com a chuva que insistia
entrar pela pequena fresta da janela, que precisou permanecer aberta enquanto a
tempestade durou.
Ao cessar de repente, deixando apenas
pequenas poças que refletiam as luzes da cidade como pequenos espelhos
cintilantes, Mayara sentiu o carro deslizar. Abrindo novamente os vidros, um ar
refrescante, quase palpável, a envolveu e o congestionamento se dissolveu em
segundo plano, após a cidade criar um corredor só para ela.
Entre os reflexos dos faróis, uma trilha de
luz surgiu no chão, quase imperceptível, brilhando ao apontar para onde deveria
seguir – um caminho que GPS nenhum jamais ousaria indicar, por ser improvável,
embora incontestavelmente eficiente. Sem questionar, lembrou-se da resposta
automática do WhatsApp de Jasmim (“o Natal está em movimento. Siga as luzes”). Mayara
seguiu e em pouco menos de dez minutos, entre prédios enfeitados e árvores
decoradas, avistou o Largo da Batata surgir à sua frente. Enquanto estacionava
e vestia a camiseta toda amassada, tentou afastar o aperto no peito provocado
pela ideia de não conseguir encontrar a duende, mais uma vez.
O local estava completamente lotado, com
artesãos e clientes, inclusive muitas crianças, envolvidas numa verdadeira
algazarra. Juntos todos compunham uma sonoridade típica de feira. E de fim de
ano. Mayara varreu a praça com os olhos apreensivos, ajustando também o olfato,
para o caso de o perfume de Jasmim se mostrar primeiro. A mulher não podia
estar longe, mas ainda assim parecia brincar de esconde-esconde. Com um
movimento rápido com o braço, o relógio revelou a hora: faltavam cinco minutos
para o pôr do sol.
Sentindo a angústia apertar a garganta, neste
momento uma nova trilha se abriu no chão em luzes piscantes que aparentemente mais
ninguém parecia enxergar. Sem titubear, Mayara a seguiu, na esperança de
finalizar a missão a tempo, caminhando por entre barracas e desviando das
pessoas e suas sacolas de compras, seguindo o rastro que tornou-se mais e mais
brilhante, conforme avançava. Em poucos instantes, alguns metros adiante, se
deparou com um espaço todo enfeitado com temas de Natal e, no centro, viu alguém
vestido de Papai Noel, numa fantasia bastante realista, diga-se de passagem,
com tons de vermelho que imediatamente chamaram sua atenção, parecendo brilhar
com algum tipo de luz própria.
O cenário assemelhava-se a um pequeno palco cuidadosamente
decorado para a ocasião: árvores artificiais cobertas de neve falsa, guirlandas
coloridas penduradas nas laterais e pequenas luzes piscando em cadência,
refletindo o chão molhado. Em meio a uma gigantesca árvore, bonecos e pequenos
arbustos enfeitados, o local exalava um cheiro gostoso de chocolate e biscoito,
enquanto crianças corriam de um lado para outro, encantadas com a magia que
parecia concentrar-se naquele ponto específico da praça. A fila para falar com
o “bom velhinho” estava gigante, mas ninguém ali parecia se importar por ter
que esperar. Aparentemente, valia tudo para ter um momento a sós com o
representante oficial do Natal.
Ao pensar brevemente a respeito, Mayara reparou
que o homem fantasiado de Noel olhou diretamente para ela, como se a percebesse
ali, em meio à multidão, tão deslocada, apertando o envelope entre as mãos parecendo
proteger algum segredo natalino. Seu gorro vermelho, impecavelmente alinhado,
terminava numa ponta perfeita com o pompom branco reluzente, combinando com a
barba grisalha cuidadosamente penteada. Sem dizer uma palavra, ele sorriu para
ela, até que a visão de Mayara fosse completamente tampada pela silhueta de
Jasmim, que surgiu do nada.
O coração de Mayara imediatamente se acelerou.
A duende, finalmente à sua frente, parecia brilhar com uma luz própria que não
vinha das decorações. Seu vestido verde cintilava sob a iluminação das pequenas
lâmpadas, lembrando pequenos vaga-lumes, e os sinos presos à saia tilintaram
suavemente após ser notada. Jasmim a olhou diretamente nos olhos e, por um
instante, o tempo desacelerou; a praça inteira calou-se diante daquele tão
esperado encontro.
– Cheguei a tempo – Mayara diz, em tom de
cumprimento, tentando equilibrar a excitação com a respiração ainda acelerada
pelo alívio de conseguir encontrá-la.
A duende inclinou a cabeça, com uma expressão
divertida estampando o rosto, avaliando a motorista com os olhos brilhando.
– Sim, e trouxe o nosso envelope – Jasmim responde,
após uma breve olhada em direção ao céu, pintado de rosa-escuro. Ela então estendeu
a mão, enquanto o pacote praticamente pulsava com uma urgência discreta e
silenciosa.
Neste momento, a fila, as crianças correndo,
o cheiro doce de biscoito e chocolate, o perfume e os sinos da roupa de Jasmim,
tudo desapareceu da percepção de Mayara. Ali, no centro daquela magia
concentrada, só existiam ela, a duende e o pequeno segredo que precisava ser
entregue. E que finalmente seria revelado.
– Algumas coisas sabem a hora certa de voltar
– a duende fala, num tom enigmático, abrindo o envelope com cuidado.
Em silêncio e notadamente sem nenhuma pressa,
a mulher tirou dali de dentro uma cartinha cuidadosamente dobrada, em várias
partes. No instante em que o papel tocou o ar, Mayara sentiu o aroma delicioso
de café passado na hora misturado ao cheiro quente de bolo de fubá
recém-assado, tão vívido que fechou os olhos, sem perceber. Junto dele, vindo
de muito longe, um som conhecido se insinuou em sua percepção: o canto contínuo
e hipnótico das cigarras ecoou baixinho, como nas tardes quentes do interior.
Foram necessários alguns segundos até que
Mayara começasse a reconhecer a letra registrada na mensagem escrita à mão. Não
foi imediato; primeiro veio uma vaga sensação de familiaridade, como quando se
encontra um objeto antigo numa gaveta esquecida e o corpo reage antes da
memória. As curvas arredondadas das letras, a inclinação irregular das
palavras, o cuidado excessivo em algumas sílabas e o abandono quase infantil em
outras pareciam obedecer a um ritmo conhecido, guardado em algum lugar profundo
e silencioso dela.
Mayara reconheceu, antes mesmo de ler, uma
tentativa clara de capricho, que demonstrava o esforço de quem escreveu em ser
compreendida, desenhando cada palavra com uma atenção exagerada, mas sem
conseguir esconder completamente a pressa ou a emoção do gesto. Certas letras
se inclinavam mais do que deveriam; outras quase se tocavam, formando pequenas
alianças improvisadas no papel. Era uma escrita que denunciava concentração,
expectativa... e também certa inocência.
O peito de Mayara se apertou, tomado por uma
estranha mistura de reconhecimento e incredulidade. Aquela cartinha estivera
guardada a sete chaves por muitos e muitos anos, esquecida não por descuido,
mas por necessidade. E agora reaparecia ali, diante dela, literalmente num
passe de mágica, exigindo ser vista novamente.
As palavras, simples e infantilmente
perfeitas, falavam de férias felizes, de dias longos sem compromisso e do
desejo sincero de que sua família tivesse bons momentos naquele Natal de 1987.
Não havia pedidos grandiosos nem listas intermináveis de presentes, apenas a
esperança sincera de uma criança que ainda acreditava que o mundo sabia ser
gentil – pelo menos em dezembro.
Mayara reconheceu cada traço. Aquela carta
havia sido escrita por ela mesma, muitos anos antes, quando ainda cabia sentar
no chão da sala da avó com as pernas cruzadas, a língua entre os lábios e o
cuidado exagerado de quem queria caprichar para agradar Papai Noel.
No final da cartinha, a pequena Mayara se
despedia com a mesma frase que, décadas depois, Jasmim lhe oferecera ao sair do
carro, quando o passado encontrou uma brecha para retornar ao presente: “Desejo
a você um feliz Natal e uma ótima vida!”.
Ao ler aquelas linhas, uma onda de nostalgia
a tomou. Mayara notou que, de maneira absurdamente distraída, havia se
esquecido da simplicidade e da inocência de seus desejos mais sinceros. E
agora, ali, frente a frente com Jasmim, constatava que a magia natalina não se
limitava apenas às luzes e decorações: estava também no reconhecimento de tudo
o que ela já fora e na lembrança de que, mesmo desacreditada, ainda podia se
conectar com a verdadeira essência do Natal. E com a sua verdadeira essência,
principalmente.
Jasmim sorri, inclinando a cabeça em sua
direção.
– Parece que o seu passado quis te encontrar
hoje – a duende fala, com a voz suave – Isso é um lembrete do que realmente
importa, Mayara. Não é sobre presentes nem compras… é sobre aquilo que você
nunca deixou de ser, mesmo sem perceber. É sobre se resgatar.
Mayara segurou a carta com firmeza, sentindo
um calor surgir no peito e abraçá-la por inteiro, de maneira reconfortante.
Pela primeira vez naquele dia, compreendeu que a jornada, os desvios e até mesmo
os imprevistos tinham um propósito: guiá-la de volta a si mesma, enquanto ainda
havia tempo.
Sem dizer mais nada, a duende se afastou,
ocupada com seus afazeres de Natal. O som dos sinos de sua roupa só deixou de
ser ouvido quando uma buzina resgatou Mayara de volta à realidade. Perto dali, Tania
estacionava a moto, após vê-la, sorrindo e acenando em sua direção, numa clara
demonstração de que até as pessoas adultas podem ser agraciadas em dezembro. Basta
acreditar, mesmo que por um instante, que a magia existe. E que, às vezes, ela
surge nos lugares mais inesperados, nos trazendo de volta para nós mesmas.
Feliz Natal!
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