Cinco estrelas ★★★★★

 

Exatas 23 longas noites separam o começo real desta história do dia de hoje. Foi quase um mês aguardando o tão esperado 26 de setembro, o sábado em que finalmente embarquei rumo a São Paulo, num trajeto que me recuso a chamar de viagem, pois duas horas dentro de um ônibus não deveriam ganhar esse tipo de status. Inclusive porque, a depender do motorista, esse tempo tende a diminuir drasticamente.
Estar na capital paulista é sempre uma aventura, mas gosto de me perder em meio à multidão, num cenário que não faz mais parte da rotina, mas que também não é totalmente desconhecido. Já estive aqui outras vezes, por diferentes motivos, em diferentes ocasiões, inclusive em outra vida, quando morei aqui. E, da mesma forma como acontece com a natureza, elemento principal do meu atual habitat natural, o que percebo é que a cidade nunca é a mesma. Ela pulsa, vibra e vive do jeitinho dela: caótica para quem chega, absolutamente normal para quem vive aqui.
Como há sempre gastos voluptuosos nesse tipo de rolê – em especial o deste sábado –, optei por investir num deslocamento com ônibus clandestino. Quer dizer, com ônibus não oficial. Ele não sai nem chega na rodoviária e custa metade do preço de uma linha convencional (que, na minha cidade, sai de hora em hora). O desembarque, ainda assim, é na rua lateral do Terminal Barra Funda, perto do Memorial da América Latina (que recomendo visitar, é ótimo). Logo que desembarquei e dei o primeiro suspiro, reconhecendo a mistura de cheiros entre poluição e odores que não sei nomear, vi que a exposição na Galeria Marta Traba, dentro do Memorial, é de professores-artistas da universidade perto de casa (a Unicamp). Coincidência? Eu acho que não.
“Há quanto tempo pensando nisso” é o nome da exposição e poderia nomear também esse recorte pessoal em formato de conto. Afinal, também venho pensando nisso há bastante tempo.
Foi numa quarta-feira qualquer que defini qual seria meu destino no final do mês. Porque tinha que esperar um dinheiro cair na conta e principalmente porque fui impulsionada por um post que vi no Instagram. Àquela hora eu já deveria estar dormindo, mas quis o Universo, com a ajuda do Santo Algoritmo, que ainda estivesse desperta para apreciar aquela postagem tão especial e ao mesmo tempo tão despretensiosa. Já falei que aguardo por isso há 23 dias, certo?
Tentei não parecer um bicho do mato e, com a mesma agilidade que saquei o celular do bolso, o guardei, com medo de ser assaltada. O endereço já estava salvo na barra do aplicativo, então foi mais uma questão de enviar a solicitação e confirmar que o embarque seria em três minutos. De onde venho, costumo esperar bem mais.
Quase ao mesmo tempo em que meu estômago roncou, vi o carro encostar. Todo preto e com película nos vidros, tomei o cuidado de confirmar a placa, antes de embarcar. Da calçada, foi impossível ver o rosto de quem dirigia e, na urgência de não ser roubada, não conferi o nome do motorista. Acredito que por isso veio a minha surpresa.
– Olá, boa tarde – a motorista cumprimentou, me olhando de relance por cima dos óculos escuros. Minha primeira reação foi sorrir, porque se tem uma coisa que eu AMO nessa vida é estar perto de mulheres. De todo tipo: trabalhadoras, batalhadoras, que me deixam segura pelo simples fato de existirem. E não serem homens!  Ainda mais em carro de aplicativo, numa cidade perigosa – Vamos no número... 55, certo? – ela confirma, passando o dedo na tela do celular, cujo GPS indicava que nosso trajeto seria concluído em pouco mais de 15 minutos. Suas unhas eram curtas e seus dedos não carregavam nenhum adorno, apenas um band-aid no polegar. Lindas mãos!
– Isso mesmo, por favor, grata – respondi, me sentindo uma tola quando as palavras saíram emboladas. Não sei o que acontece, mas às vezes fico boba perto de mulheres bonitas. Parece que até desaprendo a falar, uma bocó.
E a motorista, sem dúvida nenhuma, era linda, apesar do pouco que consegui ver. O retângulo do espelho retrovisor enquadrava só uma pequena parte, mas o perfume dela já foi suficiente para me deixar de quatro. Não resisto a mulher cheirosa, acho uma delícia, não há aparência que minimize um cheiro gostoso. E o carro dela, limpíssimo, devo dizer, também tinha um aroma que, mesmo suave, era muito refrescante. Um sonho de uma tarde de primavera.
– Que bom que parou de chover, né? – arrisquei, comprovando que ainda pior do que gaguejar é puxar papo idiota – O dia está lindo – continuei, vendo que a atenção da motorista se voltou para mim (ou ao menos pareceu. A lente escura não me deixou ver direito, mas como sou eu quem está contando essa história, será de acordo com as minhas fantasias em tempo real).
– É, parece que São Pedro anda bastante zangado – ela respondeu, me arrancando um sorriso discreto, desses que deixam escapar um arzinho pelo nariz. Sem querer, me perguntei quantas vezes ela já teria falado esse tipo de coisa. As pessoas são tão previsíveis! – Essa semana precisei cancelar uma corrida por motivos de alagamento – a motorista continuou, completamente alheia aos meus pensamentos – Ao menos no cinema, o fim do mundo costuma ser mais divertido.
Novamente, ri. Esse é justamente o tipo de comentário que eu mesma faço! Acho uó ter que acompanhar o colapso no mundo causado por crise climática, negacionista e política enquanto preencho planilhas de Excel. Mas talvez enfrentar tudo isso atrás de um volante no trânsito paulistano seja muito pior. Ou não?
– Faz tempo que você é motorista? – questionei, me valendo do que julguei ser uma boa brecha para escapar de assuntos convencionais – Deve ser difícil lidar com as quatro estações em um único dia de trabalho enquanto dirige por aqui.
– Faz alguns anos, sim – ela voltou a me encarar pelo espelho, aproveitando um semáforo fechado. Abaixou o rádio antes de continuar – Acho que eu enlouqueceria num trabalho convencional.
O que seria um trabalho convencional para ela?
– Gosto de estar em movimento e amo São Paulo, então não é nada difícil – a motorista continuou. Sua voz precisou disputar com o som de uma moto que passou buzinando, a poucos centímetros de nós duas. Que mulher interessante!
– Já eu, trabalho em sistema de home office. Literalmente sou paga para não sair de casa – respondi.
– E gosta? – ela quis saber, mas minha resposta foi uma erguida de ombros e uma careta que durou alguns segundos. Não sei se ela viu porque o semáforo abriu.
– O bom é que você conhece bastante gente, né? – comentei, claramente mudando de assunto.
– De todo tipo, sim.
– Aposto que daria um bom livro – retruquei. Para mim, tudo vira história. E as reais são, de longe, as melhores tramas.
– Aposto que muita gente não iria acreditar em metade das coisas – agora foi a vez dela rir. Um som tão agradável que sorri.
– E você costuma ficar pensando neles depois? Nos passageiros que carrega?
– Hum... – ela pigarreou antes de responder – Alguns, sim. A maioria vai embora assim que fecha a porta, mas o mundo ainda abriga pessoas especiais. Tem gente que acaba se tornando inesquecível, embora eu nunca mais reveja.
– Tá, talvez uma série possa ser mais interessante do que um livro, no seu caso – disparei, imediatamente pensando em como a história de uma Uber pelas ruas de São Paulo seria mostrada na tevê, qual seria o tipo de enquadramento, quem iria interpretá-la, quantas temporadas etc. Na sequência, me critiquei por não respondê-la mais diretamente. Mas ela voltou a rir. Uma risada mais demorada que a anterior.
– Você é escritora? – perguntou. Desta vez, tive a certeza de que ela me encarava, porque tirou os óculos escuros para me olhar pelo espelho retrovisor. Olhos cinzas, raros, brilhantes, bonitos. Uma joia no caos da cidade.
– Não sei se posso me chamar assim... mas sim. Sou uma contadora de histórias. E, nessas, tenho asas. E chifres de alce.
Sorri na direção dela, que sorriu também com os olhos e voltou a atenção para o trânsito, puxando os óculos de volta. Os prédios à volta pareciam moldura para nossa singela interação. Me peguei pensando no porquê da minha dificuldade em me aceitar como sou. Tenho até livro (auto)publicado, por que caralhos não me assumo de vez como escritora?
– E você costuma pensar nelas? Nas suas personagens, depois que a história acaba? – a motorista indagou. Fez questão de virar o tronco e me olhar mais de frente. Conforme imaginei no começo da corrida, a bicha era linda. Harmoniosa.
Meu impulso foi dizer que sim, óbvio, é claro que penso nelas, fico meses em depressão pós-livro, abandonada de um jeito muito específico, o que sempre me leva a postergar o fim de uma história, por apego. Por amor. Quase disse que enfrento lutos por pessoas que se tornam minhas amigas, meus amores, encantam meus dias e aí de repente vão embora, me obrigando a caçar formas cada vez mais criativas para matar a saudade, inventando contextos fantásticos só para poder encontrá-las, mais uma vez.
– Hum, boa parte, sim – respondi, com o coração apertado. Consertei uma careta espontânea antes de continuar – Tem gente que eu crio só para extravasar, deixar fluir sentimentos e emoções com os quais não sei lidar. Mas a maioria mora no meu coração, penso nelas em diferentes momentos do dia.
– Eu assistiria às suas séries – ela disse, gentil, demonstrando estar prestando atenção na conversa – Aloka, nem sei sobre o que escreve, mas sinto que leria seus livros, enquanto ainda não forem filmados.
– Grata, fico muito honrada por isso – respondi, sentindo meu rosto corar. Que coisa mais desagradável ficar com as bochechas vermelhas diante de um elogio! Por sorte, a carona estava prestes a terminar.
– Vou só fazer esse retorno aqui, porque o seu local de desembarque fica do outro lado da rua – ela falou, me trazendo de volta à realidade. Sorri no banco de couro, feliz por ter chegado.
– Imagina, eu posso... atravessar correndo – rebati, segurando a mochila no colo quando o automóvel contornou a rua por onde descíamos. O som do pisca-alerta preencheu o interior do carro por cinco segundos, até ela voltar a acelerar.
– Prontinho – a motorista sorri, parando o carro depois de alguns metros – Ah, ótima escolha, estou certa de que vai gostar – ela complementa, analisando a fachada bonita do imóvel.
– É, faz três semanas que planejo vir aqui – falei, me soltando do cinto de segurança – Ontem nem jantei – brinco, ganhando outra risada em resposta – Agradeço muito por me trazer aqui, bom trabalho para você, tenha um ótimo dia, se cuide por aí... Como é mesmo o seu nome?
– Mayara – ela estica a mão bonita em minha direção – Eu que agradeço a companhia, te desejo boas histórias! E bom apetite – complementou, instantes antes de eu fechar a porta e acenar.
A palma da minha mão estava ligeiramente suada quando coloquei os dois pés na calçada. O restaurante tinha uma aparência externa muito elegante, com plantas esgueirando-se muro acima, combinando com os detalhes de vidro da fachada. A porta giratória da entrada parecia um convite, rumo a um mundo que há dias ansiava conhecer.
Entrei no instante em que a Uber partiu, em direção a mais um passageiro que teria a linda oportunidade de ser transportado por ela. E só não fiquei com uma pontinha de ciúmes travestido de inveja porque me convenci de que eu seria mais uma das pessoas que Mayara se lembraria depois. E também porque meu objetivo principal estava bem ali, diante dos meus olhos. Mayara foi o bônus de uma história certa de final feliz.
O local estava iluminado quando empurrei a porta, que rangeu de levinho, em tom de “boas-vindas”. Fui recepcionada primeiro por um delicioso aroma de comida boa, seguido pelo tilintar típico de um lugar como aquele em horário de almoço. Avistei as mesas alinhadinhas, cercadas por cadeiras de encosto alto, antes de perceber que alguém vinha em minha direção. Pela postura e maneira firme de se locomover, julguei ser a gerente do restaurante. Eficiente gerente, devo dizer, porque o salão parecia ter sido organizado com ajuda de fita métrica. Um deleite para quem tem mania de organização.
– Olá, boa tarde, seja muito bem-vinda – a mulher falou, com um sorriso largo enfeitando o rosto. Ela estava trajada com um uniforme bastante elegante, bordado com o logo bonito do restaurante, e tinha os cabelos cuidadosamente presos num coque no alto da cabeça. Foi inevitável não reparar que, entre os fios, havia uma mecha colorida, um rosa meio desbotado que parecia ter sido pink em algum momento – Qual o nome da sua reserva, por favor?
Ela começou a procurar num caderno de capa de couro antes mesmo que eu respondesse, descendo o dedo por vários nomes escritos com letra bonita. A recepção tinha um balcão alto, de madeira polida, que de alguma forma parecia combinar com o elegante lustre do salão mais à frente. A mulher voltou a sorrir após ouvir meu nome e encontrar minha reserva.
– Você já conhece a nossa casa? – perguntou, me encaminhando até a mesa, abrindo caminho até onde eu pretendia me regozijar. Se precisasse, estava disposta a abrir o botão da calça, foda-se. Ela não esperou eu responder e continuou falando – Somos o único restaurante do Brasil a conquistar cinco estrelas no Guia Goodyear de Restaurantes por vários anos consecutivos. Estamos na sétima edição seguida – ela sorriu por cima do ombro, satisfeita com a declaração. Claro que tinha dedo dela nessa conquista! – Aqui, atendemos pessoas de todo o Brasil, muitas aproveitam a viagem até São Paulo para nos visitar, temos procura o ano todo. Inclusive... foi tudo bem no seu deslocamento até aqui? Você veio de Campinas, né? – questionou, revelando que minha reserva ainda indicava que eu não era dali.
Enquanto atravessávamos metade do salão, observei que quase todas as cadeiras estavam ocupadas, mas as conversas em tom reservado deixavam o som ambiente se fazer presente. O espaço era amplo e muito organizado, com mesas adornadas com toalhas iguais, da mesma cor, que combinavam com as cortinas e com a decoração, refinada e digna de apreciação. A única coisa que destoava completamente era um relógio moderno pendurado em uma das paredes, com ponteiros enormes girando em volta de um círculo sem números.
De perto, o lustre no teto do centro do salão era gigante, um candelabro com várias lâmpadas. Nas laterais, havia arandelas fixadas na parede de tijolinho à vista, iluminando ainda mais.
– Foi tudo bem, sim, tudo ótimo. Já começou perfeito, tende só a melhorar, estou muito feliz – respondi, omitindo das minhas lembranças recentes a baratinha que avistei logo no começo do meu deslocamento de ônibus, em partes porque o sorriso de Mayara voltou a estampar minha memória – Estava muito ansiosa para conhecer aqui, vi o cardápio de vocês inúmeras vezes, vim disposta a comer tudo.
– Nós também ficamos muito felizes com a sua presença – a mulher riu e puxou uma cadeira para que eu pudesse sentar. De maneira bem discreta, fez um gesto para um dos garçons, chamando-o – Vou te deixar em boas mãos. Este é o Pedro, ele vai te atender nesta tarde, qualquer coisa que precisar, você pode chamá-lo. Eu também estou à disposição.
O rapaz me entregou um cardápio de capa dura, com o brasão do restaurante em alto relevo. Observei e tateei o desenho por alguns segundos, antes de direcionar a atenção para o menu e suas delícias. Qual seria a história por trás daquele logo? E de tudo o mais? Cada detalhe do restaurante parecia cuidadosamente pensado, meticulosamente planejado, a começar pelo logo, que estampava diversos elementos, como o cardápio, as toalhas, o uniforme dos funcionários, a...
O garçom se afastou, talvez porque percebeu que eu sou uma deslumbrada. No exato momento, meu celular vibrou, no bolso da calça jeans. Me irritei só com a prévia da mensagem recebida, que dizia: “Não acreditooo que vc é impulsiva desse jeito e vai p/ SP só pra almoçar num rest...”.
Ai, nem me dei ao trabalho de terminar de ler, que chatice. E daí que percorri mais de 100 km num busão de manutenção duvidosa em um sábado ensolarado com previsão de tempestade só para viver essa experiência? Minha primeira vez num restaurante cinco estrelas, poxa!
Antes de guardar o aparelho no fundo da mochila, tive o cuidado de avaliar Mayara no aplicativo da Uber. A linda Mayara... O fato é que, se eu fosse realmente impulsiva, escreveria ali, publicamente, sobre a imensa satisfação que tive de ter conhecido de pertinho aquela profissional, digna das melhores histórias. E ainda reclamaria de não ter mais para dar a ela. Porque eu daria mais estrelas, se pudesse. Daria tudo, se é que me entende.
O cardápio inteiro parecia apetitoso, eu de verdade queria poder comer tudo. E o preço só não salgou o rolê porque vim preparada. No instante em que vi o post no Instagram, com o corte de uma entrevista com a chef e dona dali, já comecei a me preparar financeiramente para comer e beber bem. Em outra cidade, sim, o que é que tem?
Naquele trecho da entrevista, a chef afirmava que seu restaurante não havia sido criado para impressionar, mas para fazer as pessoas quererem voltar. “Você pode seguir uma receita à risca, escolher os melhores ingredientes, cuidar de cada detalhe, mas tem uma coisa que não está na receita; tem a ver com quem prepara. E é isso que transforma comida boa em uma experiência memorável”, ela disse.  
Primeiro, fiquei curiosa em conhecer o restaurante. Parecia mesmo ótimo, aconchegante, com uma comida muito bonita, bem apresentável. E a dona era super cativante, elegante, belíssima. Mulher de negócios, chef de cozinha, dona da porra toda e... casada com duas mulheres. Duas! E eu aqui, sem nenhuma...
Como sei disso? Descobri, depois de horas de investigação. Horas, no plural.
– Já está pronta para pedir? – alguém me perguntou, interrompendo bruscamente meu fluxo mental. O intrigante foi que quem estava parada ao meu lado não era o garçom e sim a mulher da recepção, que eu já jurava ser a eficiente gerente dali.
– Ai, eu... – gaguejei, um pouco sem graça, deslizando os olhos para o cardápio novamente, sem focar em nada, de fato – ...estou tão em dúvida, desculpe, tudo parece tão... bom, que se eu pudesse, comeria tudo – sorri, e a gerente sorriu também. Não era nenhum exagero, mesmo me programando há dias, cheguei sem saber o que comer. Não queria desperdiçar a oportunidade e tenho dificuldade de tomar decisões em momentos assim.
– Entendo perfeitamente o que quer dizer – ela ainda sorria. Não parecia zangada com a minha demora nem desconfiada de que o garçom pudesse ter falhado de alguma forma comigo – Que tal começar com o prato da casa? É uma boa oportunidade de se alimentar bem, experimentar nosso tempero e ainda provar a especialidade da nossa cozinha. Há alguns anos, adotamos a versão vegetariana, por uma escolha pessoal da chef, e é um prato que sempre agrada bastante.  
– Maravilhoso, acho que é uma excelente solução – rebati, fechando o cardápio e entregando-o para o garçom, que anotou meu pedido num tablet, sem que eu precisasse repetir. Embora praticamente tivesse decorado o menu, não lembrei de cara qual era o prato recomendado. Mas sabia que seria bom.
– Fique à vontade, querida – a gerente acenou e se afastou, antes que eu pudesse ler seu nome no crachá.
Nos fundos do salão havia um bar, com o balcão todo preto, envolto em uma iluminação intimista, confortável. Uma moça com vários piercings preparava um drinque colorido atrás da bancada lustrada e sorriu para mim quando passei em direção ao banheiro. O aroma por ali era ainda melhor do que no salão, devido à proximidade com a cozinha, mas naquele horário achei pouco movimentado. Imaginei como ficaria à noite, ou durante um evento fechado. Será que existia essa opção? Como seria uma festa ali? Certeza que babado.
O banheiro era o que os mais jovens chamariam de “instagramável”: bonito, com espelhos que iam até quase o teto e luzes na lateral, nem parecia um ambiente sanitário. E a prova disso é que encontrei várias fotos justamente naquele cenário, nas marcações do perfil do restaurante. Aquelas paredes eram testemunhas de encontros que tive o prazer de imaginar, especialmente antes de dormir, enquanto sonhava em estar ali.
Eu ainda sorria quando uma mulher entrou e me cumprimentou, mesmo sem me conhecer. Ela não vestia uniforme, mas parecia tão cordial quanto uma boa funcionária. Tinha o cabelo preto e cara de safada. Ou eu que a vi assim.
– O tempo deu uma estagnada, né? – a mulher falou, lavando as mãos também, esfregando com força os dorsos, que pareciam manchados de... hidrocor? Me perguntei se ela sairia a tempo de eu tirar uma foto naquele espelho ou se precisaria retornar antes de ir embora.
– Sim, que bom, né? Já estava ficando mofada com tanta chuva nesses últimos dias – respondi, me convencendo de que puxar papo climático com desconhecidas era perfeitamente normal em interações aleatórias – São Pedro parece estar um pouco zangado – prossegui, parafraseando a motorista de Uber.
– Convenhamos que ele tem lá os seus motivos – a mulher sorriu, abrindo a porta para mim. Definitivamente teria que retornar até ali mais tarde, se quisesse uma foto.
Ao passar por ela, foi impossível não reparar em seu perfume, amadeirado, gostoso, cativante. Era impressão minha ou todas as mulheres de São Paulo agora andavam absurdamente cheirosas? Ela voltou a sorrir ao seguir em direção à cozinha enquanto eu me direcionei de volta ao salão, no sentido oposto. A mulher não usava uniforme, mas sem dúvida alguma pertencia àquele lugar.
De volta à mesa, ao me recostar na cadeira macia, percebi o quanto estava feliz, pelo simples fato de poder estar ali, naquele restaurante bonito, prestes a saborear uma refeição de qualidade preparada por uma equipe comandada por uma chef lésbica. E as pessoas à minha volta compartilhavam um sentimento parecido; naquele instante, pertencíamos à mesma rede, partes de um mesmo destino que nos levou a ocupar o mesmo espaço ao mesmo tempo.  Ou essa é uma suposição inteiramente minha, que gosto de procurar sinais onde eles muitas vezes nem existam.
(só acho que seria muito sem graça se tudo na vida não passasse de uma imensa coincidência, como a ficção nos faz acreditar)
Olhando rapidamente ao meu redor, observei que o público do restaurante era predominantemente feminino e quase todo lésbico, meu gaydar até gritou. Quantas além de mim teriam chegado ali atraídas pela história da chef, que se destacava num mercado machista e misógino, majoritariamente povoado por homens? Será que mais alguém também havia planejado a reserva na expectativa de vê-la, ou alguma de suas mulheres, que simplesmente não apareciam em lugar nenhum?
Veja, eu tive tempo. E sou propícia a embarcar nos mais variados tipos de hiperfoco que eu possa imaginar. Isso me levou, por várias e várias (e várias) noites, a buscar alguma referência que indicasse, mesmo que minimamente, quem são as esposas de Patrícia Figueiredo, a dona dO Bistrô. A mulher simplesmente escondia as esposas debaixo do avental, só pode!
Não encontrei nem uma única pista de quem sejam, o que fazem, como se chamam, a aparência. Nada. A sexualidade de Patrícia é declarada, ela é do tipo que levanta bandeira, acolhe, fala a respeito. Mas sobre a vida pessoal, que é o que a gente gosta de saber, nada. Nadinha. Zero.
Meu prato chegou e levou embora toda a minha indignação. É impossível me sentir frustrada diante de um maravilhoso ravioli artesanal de queijo de cabra, manteiga e sálvia, num prato decorado com muito bom gosto. E feito com um tempero especial que não aparecia no cardápio ou em qualquer uma das minhas pesquisas, embora haja diversas referências a respeito.
O cheiro da comida me fez gemer baixinho, fechando os olhos sem perceber. Salivei antes de alcançar o garfo e gemi de novo quando experimentei a melhor comida que já provei em toda a minha vida. Maravilhoso, nota 10, quase aplaudi em pé! O melhor tempero é sempre a fome, é verdade, mas a chef caprichou, tive que reconhecer. Gostoso demais!
Prestes a dar a segunda garfada, agora com os olhos bem abertos, vi a mulher com quem havia interagido brevemente no banheiro voltar ao meu campo de visão. Ela era muito bonita e definitivamente tinha alguma relação com o restaurante, porque, de onde eu estava, parecia dar algum direcionamento à mulher que me recepcionou quando cheguei, e que na minha fanfic era a gerente dO Bistrô.
Ela apontava para uma mesa, depois para outra e mexia as mãos, indicando a cozinha. E ria, abaixando o tronco e tocando no braço da interlocutora que, mesmo de costas, parecia rir também.
Se eu fosse realmente impulsiva, não perderia tempo e chamaria o garçom – qual era mesmo o nome dele? Enfim, o chamaria e perguntaria quem é quem naquele rolê. “Moço, se aquela ali é a gerente, quem é aquela outra mulher?”. Será que ele diria? Será que responderia o nome da provável esposa da chefe? Taí uma coisa que jamais saberemos. Afinal, meu impulso se limita a me programar financeiramente por quase um mês para almoçar em um restaurante caro, bem frequentado por um monte de caminhão, na tentativa de saciar minha faminta curiosidade.
A verdade é que qualquer uma das mulheres ao meu redor poderia perfeitamente ser casada com Patrícia. Isso vezes dois! Mas, se neste momento rolasse algum tipo de bolão, eu apostaria cegamente naquela que seguia falando com quem eu acreditava ser a gerente. Ela tinha ar de dona, postura de... não sei, de empoderada? Talvez algo além disso, até o final do almoço posso tentar elaborar um termo que a descreva melhor. Ela combinava com Patrícia – e tive que puxar o celular de volta da mochila para rever o corte que já tinha visto dezenas de vezes. A chef era linda e a primeira esposa que imaginei para ela também era bonita demais.
Na entrevista, a repórter perguntou como andava o
coração dela. Lembrava perfeitamente a resposta, mas revi, sem som e com legenda: “Minha família é muito importante para o meu trabalho e, consequentemente, meu sucesso e minha felicidade. Elas sabem que, quando se escolhe construir uma vida com alguém, constroem também os sonhos dessa pessoa. Eu as amo”.
Patrícia tinha falado isso com um sorriso tão tranquilo
que, num primeiro momento, nem dei tanta importância. Mas na terceira ou quarta vez que assisti, notei que aquela frase era uma pista. Ela tinha alguém. Na verdade, duas alguéns. E agora eu estava ali, a poucos metros de uma delas. Ou, pelo menos, foi isso que minha cabeça decidiu me fazer acreditar.
Meu pensamento, tomado de vontade própria, me levou imediatamente para a penumbra da intimidade das duas, quem sabe com elas usando um vestido decotado ou talvez apenas uma lingerie rendada, bem provocante, junto de uma terceira que eu tinha que encontrar nos próximos minutos, sob o risco de ter indigestão.
– Gostou? – o garçom perguntou, afastando a névoa criativa que me fez sorrir sem que eu notasse.
– Muito, uma delícia – respondi, entregando meu prato quase limpo, sem especificar que me referia também à fantasia criada em um lampejo de segundo – Sabia que ia gostar, mas no fim está sendo muito melhor do que imaginava. Grata!
Aceitei a sugestão de sobremesa sem prestar muita atenção ao que o garçom dizia, porque depois que se despediram, a “gerente” foi para um lado e a “esposa da chef” foi para o outro, sentando-se numa mesa no canto, perto do bar. Como sou muito da observadora, reparei que ali era simplesmente o local mais privilegiado do restaurante: ficava estrategicamente próximo da cozinha e bem de frente para o salão. Seria a mesa da chef? Na minha cabeça, ecoou um sonoro SIM!
Discretamente, puxei minha cadeira para a esquerda apenas para me certificar do que meu instinto já afirmava: a mesa já estava ocupada por alguém quando a defensora de São Pedro se sentou. Atrás de um laptop que teve a tampa abaixada assim que ganhou companhia, a moça era ligeiramente mais nova que a outra, usava óculos de armação preta e, mesmo à meia-luz do bar, era visivelmente bonita. E asmática, vi quando puxou o remédio numa bombinha para quem tem falta de ar.
Meu coração até acelerou, juro! Ninguém mais por ali parecia ter conectado as pistas como eu, decerto porque com certeza eu era a maior interessada em descobrir o que ainda não tinha sido descoberto, ou ao menos não era público. Interessada ou maluca?
Bem, talvez eu seja um pouquinho impulsiva, porque, ao ver a gerente novamente, não hesitei em chamá-la.
– Oi, desculpa... – falei, lendo duas vezes o nome no crachá, para não errar – ...Zezé. Será que posso elogiar a chef? Meu almoço está sendo tão maravilhoso, se eu tiver a chance...
– Claro, meu bem. Vou ver se ela pode vir até aqui.
Dei uma risadinha sozinha, me sentindo travessa. Ousada! Mas faria tudo outra vez porque foi Patrícia quem trouxe minha sobremesa. Pessoalmente! E, de perto, ela era ainda mais bonita do que na entrevista da internet ou nas fotos de todas as redes sociais dO Bistrô. Vestida de chef, numa roupa elegantíssima, azul-marinho com os botões brancos, bordada com o logo dO Bistrô, o tipo de gente que a gente nem espera pedir duas vezes, sabe? Obedece qualquer que seja a ordem. Imagina só ter uma mulher assim!
– Olá, é um prazer recebê-la aqui nO Bistrô – a chef falou, me entregando uma torta de maracujá em um prato decorado com sementes, que lembrei de ter visto em alguma foto. Se esta era uma tarefa que ela não apreciava fazer, em nenhum momento deixou transparecer – Como está sendo sua experiência conosco neste lindo dia de sol?
– Divino! Fenomenal! Eu já nem sei mais como descrever o almoço maravilhoso que vocês me proporcionaram. Fiz questão de te cumprimentar e, quem sabe, descobrir qual é o seu segredo. Tudo o que você faz é gostoso assim?
A chef sorriu, nitidamente satisfeita por ouvir aquilo. As mangas de seu dólmã estavam dobradas no antebraço, chamando a atenção para suas mãos, que tinham exatamente a aparência das mãos de alguém que sempre sabe o que está fazendo na cozinha. Tão habilidosas quanto eu imaginei que fossem.
Seus cabelos estavam presos de um jeito que deixava o rosto completamente à mostra e seus olhos, atentos, se concentraram em mim, registrando cada reação minha enquanto eu falava. Havia alguma coisa segura na maneira como se mantinha de pé, uma postura de quem estava acostumada a ocupar aquele espaço e sabia exatamente o que acontecia ao seu redor. Era o território dela.
Eu queria continuar olhando para ela, mas seria constrangedor demais permanecer encarando-a pelo resto da tarde, então me concentrei na sobremesa. Depois de ter passado semanas pesquisando a vida conjugal daquela desconhecida por puro hobby, senti receio de parecer uma doida em sua presença. Ou uma assediadora barata.
– Eu acredito que sim, até hoje ninguém reclamou – ela riu. Não sei se percebeu a malícia da minha pergunta, mas tudo indicou que sim – O segredo é um tempero especial, que transforma o que é comum em algo marcante.
– Olha, pois eu recomendarei você até o último ser humano que encontrar nesta Terra – afirmei, fazendo-a rir desta vez. Adoro fazer uma mulher rir.
– Agradeço por isso e novamente agradeço sua presença aqui hoje, de verdade. A Zezé comentou que você veio de longe, só para almoçar?
– “Só”? Jamais colocaria nesses termos, mas sim. Vim conhecer a casa, vi comentários muito bons, ótimos elogios. E virei mais vezes, sempre que tiver oportunidade, pode ter certeza.
– Será sempre muito bem-vinda – ela estendeu a mão em minha direção. Era firme. E bem macia – Aprecie sua sobremesa, volte sempre.
Em passos determinados, Patrícia deu meia-volta e se retirou em direção à cozinha, nos fundos do restaurante. Parou por cinco segundos, se muito, na mesa em que estavam a esposa 1 e a esposa 2, sem demonstrar qualquer afeto explícito, mas ainda assim a cumplicidade entre as três transbordou como melado quente, diante de olhos atentos como os meus. Mesmo de longe, vi a harmonia do trisal, que vivia escondido dos holofotes e das curiosidades alheias, como a minha. Mesmo breve, serviu como uma recompensa pelos últimos dias. E para os próximos.
Não houve beijo, abraço ou qualquer outro gesto que entregasse o que eu já estava convencida de ter descoberto. Ainda assim, havia alguma coisa na maneira como se olhavam. Uma intimidade tranquila, construída longe das câmeras, das
entrevistas e das minhas pesquisas noturnas.
Fiquei observando a cena por um tempo, talvez um pouco além do que pode ser socialmente aceitável. Acho que elas nem perceberam. Ou perceberam e só não se importaram.
Antes de seguir para a cozinha, Patrícia tocou de
leve no ombro da mulher que encontrei no banheiro, que retribuiu o gesto discreto e tocou na mão dela de volta. Aí a mais jovem disse alguma coisa que fez elas rirem. Pronto. Era tudo de que eu precisava para alimentar minha fantasia por mais alguns meses, até poder voltar.
Saboreei cada pedacinho da sobremesa e cada gotinha do café que veio como cortesia quando tive que pedir a conta. Mas antes de chamar um Uber, voltei ao banheiro e tirei uma foto em frente ao espelho. Duas, para garantir o foco. Postei nos stories assim que saí. #obistrô
Ao alcançar a calçada, imaginei em quantos lugares ali dentro as três já teriam se pegado. Porque se pegaram, né? Desejo fortemente que sim, amém.
Me perguntei, mais uma vez dentre tantas outras, como
funcionava exatamente aquela relação, como se conheceram, há quanto tempo estavam juntas e se gostavam de ser chamadas de trisal. Será que em algum momento se desentendiam e discutiam? Quem apaziguava? Quem seria a mais ciumenta?
Para a minha sorte, o que vi durante o almoço foi suficiente para eu concluir que havia ali alguma coisa bonita entre elas. E, na minha fanfic, muito gostosa também. Queria tanto ser uma mosquinha para poder acompanhar a rotina delas...
Enquanto aguardava a carona de volta até a Barra Funda, onde o ônibus já me esperava, olhei uma última vez para a fachada dO Bistrô, numa tentativa desesperada de imprimir na memória o máximo de detalhes daquele lugar incrível. Após semanas imaginando como seria estar ali, agora que precisava ir embora, foi estranho pensar que a experiência tinha acabado tão depressa. Uma pena!
Quando o carro chegou, menos de cinco minutos depois de solicitá-lo, ainda carregava comigo os vestígios da experiência, o gosto da sobremesa, o cheiro do restaurante e, principalmente, a imagem das três juntas naquela mesa, num momento íntimo e ao mesmo tempo desimportante. Simples, porém tão significativo para mim.
É bem provável que eu nunca descubra mais nada sobre elas e por isso mesmo faço questão de preencher cada lacuna dentro da minha cabeça, até ter a chance de poder retornar. Quem sabe, com a mesma sorte que tive hoje.
O motorista que me deixou em meu destino foi 10/10, não abriu a boca em nenhum momento no trajeto, me permitindo permanecer na aura dO Bistrô por mais tempo, envolta na energia deliciosa do restaurante e do maravilhoso almoço que me satisfez em vários níveis. Atravessamos em silêncio a Avenida Paulista, debaixo de um céu carregado de nuvens pesadas, que anunciavam um temporal iminente. “Tomara que o trabalho de Mayara não alague”, pensei, sem perceber.
Ao me acomodar no ônibus de volta para casa, abri o Ifood assim que afivelei o cinto de segurança e escrevi minha avaliação, sem titubear, enquanto chacoalhava numa poltrona dura, com o encosto quebrado: “Comida maravilhosa, ambiente agradável, acolhedor e funcionários muito gentis e atenciosos. Recomendo fortemente O Bistrô. Cinco estrelas. Assinado: caribu”.


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