A barra
Comprei uma barra. Dessas, que
embora móveis ficam fixas no batente da porta, sabe? A decisão pela compra foi
no mesmo dia que peguei o resultado de uma ressonância que apontou uma
inflamação na bainha do tendão dos flexores de dois dedos do meu pé direito (algo
bem específico), possivelmente provocada depois que contundi o joelho esquerdo
e não parei de correr. Mas como a segunda dor foi infinitamente maior que a
primeira (que já doía um bocado), me obriguei a ir ao médico, fiz exames e,
absolutamente contra a minha vontade, precisei parar de correr. Minha amiga diz
que sou dramática, que a pausa não vai passar de algumas semanas, talvez poucos
meses, mas para alguém como eu, o afastamento representa um certo fim porque já
faz tempo que eu vivo com os dois pés fincados no presente, já que o amanhã a
ninguém pertence. E, se hoje não posso correr, hoje não posso correr. E isso, é
sim, um fim em si.
Sou uma mulher muito... enérgica. No sentido mais literal da palavra: tenho muita energia dentro de mim, e não disse de que tipo. No caso, sou recheada por uma energia bem carregada. Alguns diriam “pessimista”, mas eu bato na tecla do “realista”. E como a realidade nem sempre me agrada, me vejo quase sempre carregada de um tipo específico de energia que me faz querer bater nas pessoas. Sim, socar mesmo, agredir fisicamente, machucar, com alguma sorte fazer sangrar. Quero bater em colegas de trabalho, em clientes, em vizinhos, no síndico do meu prédio, em políticos... ah, esses tem alguns que se eu encontro na rua, é porrada na certa (nos meus pensamentos, ao menos, porque sigo com o réu primário intacto, devidamente preservado). Em partes, por isso gosto tanto de correr: é uma bela forma de cansar o corpo tanto quanto canso a minha mente. Ou, dito de outra forma: é uma maneira bastante eficiente de me ocupar com outros tipos de cansaço, visto que nunca bati em ninguém (até agora).
Quando comecei a correr, em 2022, a minha meta era participar da São Silvestre, um mês depois de completar 40 anos. Em 2023, a meta passou a ser correr uma meia maratona por mês (e consegui, foram mais de 1500 quilômetros percorridos ao longo do ano). Em 2024, tive dengue e logo depois um episódio grave de depressão, o que mudou meu objetivo para apenas correr, não importasse a distância – nesse período, sair de casa já era motivo de pódio. Em 2025, tive covid em janeiro e, em junho, lesionei o joelho na Meia Maratona da cidade, especificamente no quilômetro 18, o que me levou a caminhar até o fim mancando e chorando de dor. Parei de correr? Que nada, por isso a inflamação no pé, que incomodava mesmo quando eu estava parada, doía até quando estava dormindo.
Aí imagina só a gracinha: toda a energia gasta na sola de tênis caro se acumulou dentro de mim, acredito que até de maneira amplificada, porque tenho a impressão de quanto mais gasto, mais acumulo. Mas não dá, está impossível correr, sinto muita, muita dor no pé, e no joelho, e na lombar, que agora dói por reflexo, visto que minha pisada ficou diferente. Então só me restou mesmo calçar uma pantufa que não agride ainda mais meus flexores, tomar remédio e descansar. O corpo, porque a mente segue a milhão.
Minha resolução inicial foi me lamentar. Claro, estou de castigo! Bom, talvez minha amiga tenha razão... sou mesmo um pouquinho dramática. Mas também sou uma pessoa prática, então enxuguei as lágrimas, sequei o pranto e comprei uma barra na Shopee. Como gosto muito de aniversários, do meu principalmente, estabeleci que até novembro vou me erguer lá no alto. Eu, que no primeiro dia me enrosquei com o elástico que amarrei para me ajudar, mas que acabou sendo deixado de lado depois de eu quase me quebrar. Eu, que mal tinha força nos membros superiores para me levantar um centímetro que fosse do chão.
Minha estratégia é simples: cada vez que me irrito no trabalho, vou lá e me penduro. Vi no Instagram que este é o melhor método de me estabilizar e ensinar meu corpo a fazer o que eu quero que ele faça. Eu me estresso muito no dia a dia. Muito, sou bobinha, me preocupo em demasia com as entregas que se atrasam, com a incompetência alheia, com a estupidez humana em geral, mais ainda no mercado de trabalho. Então, não é difícil.
Na verdade, é bem simples: a barra está no batente do meu quarto, toda hora passo embaixo e, sempre que passo, me penduro (até quando não estou necessariamente zangada). Quer dizer, no começo eu me pendurava: primeiro contando até três, depois durante cinco segundos, depois dez, aumentei para 20, 30, até chegar em um minuto completo me segurando com os dedos e braços e antebraços que reclamavam em protesto enquanto eu ficava lá. Aí separei a luvinha de academia e todo dia acordo com a meta de me segurar pelo menos um minuto por dia.
Assim, a respiração com o tempo foi se ajustando, o corpo como um todo foi se adequando até aguentar meio minuto sem nem reclamar. Quando me segurar por um minuto inteiro deixou de ser uma aberração, passei a ficar menos tempo, mas comecei a trabalhar as escápulas para que as minhas costas entendessem que também fazem parte da jogada (mais uma dica do Instagram, meu algoritmo jura que sou marombeira). Quando me ergui até a metade pela primeira vez, chorei sem querer (é... pensando bem, sou mesmo Drama Queen, mas tudo bem).
A meta no começo era me erguer até novembro, mas quinta-feira passada eu fiquei tão, tão, mas tão irritada no trabalho que desci no meio da tarde, debaixo de chuva, num frio de 12º e lavei meu carro com um paninho de chão (está brilhante! Esfreguei a lataria toda com a força do ódio). Quando retornei, me pendurei e me levantei até quase lá em cima pela primeira vez. Foi uma subida única, fraca, até, mas real. Eu consegui e sou do tipo que não menospreza nenhum feito, por menor que seja a conquista. Não vou nem entrar no mérito de que desse dia em diante passei a conviver com uma gastrite fodida porque, nesse contexto, isso acaba sendo mero detalhe.
Hoje, depois de tomar meu remedinho de cada dia, segundos depois de discutir no grupo do zap, de maneira inédita eu subi meu queixo acima da barra. Sim, até lá em cima, minha testa quase encostou no batente. E, ao contrário das vezes anteriores, até mantive a estabilidade por alguns segundinhos, e ensaiei uma segunda subida seguida – algo que até então jurava ser incapaz de realizar.
É curioso... eu comprei a barra porque senti que precisava preencher o vazio deixado pela corrida, mas talvez ela nunca tenha servido para isso. Até porque a corrida sempre foi o jeito que encontrei de fugir de mim, e a barra faz exatamente o contrário: me deixa suspensa, sem ter para onde correr. É por isso que ela funciona; a corrida transformava raiva em quilômetros, a barra transforma raiva em centímetros e, no fim das contas, as duas fazem exatamente a mesma coisa: impedem que eu me transborde.
No dia em que o médico me proibiu de correr, achei que aquele era um fim – e talvez fosse mesmo. Mas agora entendo que, às vezes, seguir em frente também é aprender a subir.
Sou uma mulher muito... enérgica. No sentido mais literal da palavra: tenho muita energia dentro de mim, e não disse de que tipo. No caso, sou recheada por uma energia bem carregada. Alguns diriam “pessimista”, mas eu bato na tecla do “realista”. E como a realidade nem sempre me agrada, me vejo quase sempre carregada de um tipo específico de energia que me faz querer bater nas pessoas. Sim, socar mesmo, agredir fisicamente, machucar, com alguma sorte fazer sangrar. Quero bater em colegas de trabalho, em clientes, em vizinhos, no síndico do meu prédio, em políticos... ah, esses tem alguns que se eu encontro na rua, é porrada na certa (nos meus pensamentos, ao menos, porque sigo com o réu primário intacto, devidamente preservado). Em partes, por isso gosto tanto de correr: é uma bela forma de cansar o corpo tanto quanto canso a minha mente. Ou, dito de outra forma: é uma maneira bastante eficiente de me ocupar com outros tipos de cansaço, visto que nunca bati em ninguém (até agora).
Quando comecei a correr, em 2022, a minha meta era participar da São Silvestre, um mês depois de completar 40 anos. Em 2023, a meta passou a ser correr uma meia maratona por mês (e consegui, foram mais de 1500 quilômetros percorridos ao longo do ano). Em 2024, tive dengue e logo depois um episódio grave de depressão, o que mudou meu objetivo para apenas correr, não importasse a distância – nesse período, sair de casa já era motivo de pódio. Em 2025, tive covid em janeiro e, em junho, lesionei o joelho na Meia Maratona da cidade, especificamente no quilômetro 18, o que me levou a caminhar até o fim mancando e chorando de dor. Parei de correr? Que nada, por isso a inflamação no pé, que incomodava mesmo quando eu estava parada, doía até quando estava dormindo.
Aí imagina só a gracinha: toda a energia gasta na sola de tênis caro se acumulou dentro de mim, acredito que até de maneira amplificada, porque tenho a impressão de quanto mais gasto, mais acumulo. Mas não dá, está impossível correr, sinto muita, muita dor no pé, e no joelho, e na lombar, que agora dói por reflexo, visto que minha pisada ficou diferente. Então só me restou mesmo calçar uma pantufa que não agride ainda mais meus flexores, tomar remédio e descansar. O corpo, porque a mente segue a milhão.
Minha resolução inicial foi me lamentar. Claro, estou de castigo! Bom, talvez minha amiga tenha razão... sou mesmo um pouquinho dramática. Mas também sou uma pessoa prática, então enxuguei as lágrimas, sequei o pranto e comprei uma barra na Shopee. Como gosto muito de aniversários, do meu principalmente, estabeleci que até novembro vou me erguer lá no alto. Eu, que no primeiro dia me enrosquei com o elástico que amarrei para me ajudar, mas que acabou sendo deixado de lado depois de eu quase me quebrar. Eu, que mal tinha força nos membros superiores para me levantar um centímetro que fosse do chão.
Minha estratégia é simples: cada vez que me irrito no trabalho, vou lá e me penduro. Vi no Instagram que este é o melhor método de me estabilizar e ensinar meu corpo a fazer o que eu quero que ele faça. Eu me estresso muito no dia a dia. Muito, sou bobinha, me preocupo em demasia com as entregas que se atrasam, com a incompetência alheia, com a estupidez humana em geral, mais ainda no mercado de trabalho. Então, não é difícil.
Na verdade, é bem simples: a barra está no batente do meu quarto, toda hora passo embaixo e, sempre que passo, me penduro (até quando não estou necessariamente zangada). Quer dizer, no começo eu me pendurava: primeiro contando até três, depois durante cinco segundos, depois dez, aumentei para 20, 30, até chegar em um minuto completo me segurando com os dedos e braços e antebraços que reclamavam em protesto enquanto eu ficava lá. Aí separei a luvinha de academia e todo dia acordo com a meta de me segurar pelo menos um minuto por dia.
Assim, a respiração com o tempo foi se ajustando, o corpo como um todo foi se adequando até aguentar meio minuto sem nem reclamar. Quando me segurar por um minuto inteiro deixou de ser uma aberração, passei a ficar menos tempo, mas comecei a trabalhar as escápulas para que as minhas costas entendessem que também fazem parte da jogada (mais uma dica do Instagram, meu algoritmo jura que sou marombeira). Quando me ergui até a metade pela primeira vez, chorei sem querer (é... pensando bem, sou mesmo Drama Queen, mas tudo bem).
A meta no começo era me erguer até novembro, mas quinta-feira passada eu fiquei tão, tão, mas tão irritada no trabalho que desci no meio da tarde, debaixo de chuva, num frio de 12º e lavei meu carro com um paninho de chão (está brilhante! Esfreguei a lataria toda com a força do ódio). Quando retornei, me pendurei e me levantei até quase lá em cima pela primeira vez. Foi uma subida única, fraca, até, mas real. Eu consegui e sou do tipo que não menospreza nenhum feito, por menor que seja a conquista. Não vou nem entrar no mérito de que desse dia em diante passei a conviver com uma gastrite fodida porque, nesse contexto, isso acaba sendo mero detalhe.
Hoje, depois de tomar meu remedinho de cada dia, segundos depois de discutir no grupo do zap, de maneira inédita eu subi meu queixo acima da barra. Sim, até lá em cima, minha testa quase encostou no batente. E, ao contrário das vezes anteriores, até mantive a estabilidade por alguns segundinhos, e ensaiei uma segunda subida seguida – algo que até então jurava ser incapaz de realizar.
É curioso... eu comprei a barra porque senti que precisava preencher o vazio deixado pela corrida, mas talvez ela nunca tenha servido para isso. Até porque a corrida sempre foi o jeito que encontrei de fugir de mim, e a barra faz exatamente o contrário: me deixa suspensa, sem ter para onde correr. É por isso que ela funciona; a corrida transformava raiva em quilômetros, a barra transforma raiva em centímetros e, no fim das contas, as duas fazem exatamente a mesma coisa: impedem que eu me transborde.
No dia em que o médico me proibiu de correr, achei que aquele era um fim – e talvez fosse mesmo. Mas agora entendo que, às vezes, seguir em frente também é aprender a subir.