Não acredite nela (Desafio Lettera "Uma imagem vale por mil palavras", edição 2026)
PARTE 1
Às 21h55, Liz
já deveria estar em casa, no conforto de seu lar, de preferência debaixo das
cobertas, enrolada em Marcelle, que costumava esperá-la para dormirem juntas.
Em vez disso,
observava, a quilômetros de distância, o que parecia ser sangue diante de um
sofá reformado enquanto o ventilador de teto espalhava um cheiro estranho de
café frio pelo galpão. A primeira coisa que percebeu sobre o local foi o
silêncio; não era exatamente um silêncio vazio, mas interrompido. Parecia que
alguém tinha acabado de sair dali segundos antes. Fugindo, provavelmente.
Correndo, com certeza.
As luzes
estavam acesas – uma fileira delas, de LED, tão incômodas quanto as testemunhas
que permaneciam no local. Tão artificiais quanto a cena que parecia montada.
Liz seguia concentrada no sangue seco quando a iluminação branca revelou o
restante do espaço. Um computador permanecia ligado sobre a bancada de madeira
e o café gelado em uma caneca manchada aguardava por um gole que jamais viria.
Intocado. E bastou apenas um sinal sutil feito com a cabeça para que Felipa
compreendesse e, com a câmera do celular, registrasse o objeto inanimado.
Felipa só
parou de fotografar para telefonar para Rute. A perita era especialista em
cenas de crime e costumava acompanhar as policiais em quase todos os casos,
talvez por ser uma das poucas pessoas que jamais reclamava do horário em que
era chamada.
Na parede de
concreto, entre fotografias, recortes de revista e anotações feitas com caneta
vermelha, Liz observou uma confusão de informações que englobava mapas mentais,
post-its numerados, diagramas circulares e sequências matemáticas que ela foi
incapaz de compreender à primeira vista. Ainda assim, fotografou tudo. Sabia
que, mais tarde, ela, Felipa e Rute passariam horas montando aquele
quebra-cabeça.
Ao se mover
em direção à mesa de trabalho, Liz reparou nos estilhaços espalhados pelo chão.
O material lembrava vidro de copo quebrado, mas no local não encontrou nada
parecido que justificasse aquilo, visto que os únicos utensílios por ali
resumiam-se a canecas de cerâmica e duas ou três colheres. “Ok, isso é
estranho”, pensou, mas não falou nada. Mantinha-se em silêncio, desde a sua
chegada, no intuito de ouvir o que as testemunhas relatavam ao policial, que se
esforçava ao máximo para anotar tudo o que era dito. As três jovens falavam ao
mesmo tempo, atropelando frases, versões e detalhes. Liz permaneceu quieta,
atenta.
– Quando
cheguei, já estava tudo assim – disse a primeira – Veja o café intacto! Veja o
computador ligado!
– A Mirela
jamais sairia daqui sem apagar as luzes, sem trancar as portas... – relatava a
segunda – Você sabe o valor desse computador?
– Tem sangue
no chão! Tem vidro quebrado! Alguma coisa séria aconteceu! Vocês precisam
descobrir o que houve aqui! – bradava a terceira.
Liz não
respondeu nada. Continuou observando o vidro no chão enquanto as três jovens
seguiam atrás dela atropelando hipóteses, receios e suposições. Agachou-se
diante da mancha escura próxima ao sofá e aproximou dois dedos do piso frio sem
chegar a tocar o sangue.
Havia algo
errado naquilo. Obviamente, solicitaria uma análise laboratorial, mas percebeu
de imediato que o cheiro não condizia com sangue. Mesmo misturado ao café
envelhecido e ao ar abafado do galpão, o odor metálico esperado não estava ali.
Em seu lugar, restava apenas um aroma químico, adocicado demais para passar
despercebido. Artificial.
Liz ergueu os
olhos lentamente para o restante do ambiente. Olhou para o computador ligado.
Para as luzes acesas. Para o vidro quebrado. Para as testemunhas nervosas.
Depois, novamente, para o sangue. Tudo era excessivamente visível. Parecia que
alguém havia organizado a cena pensando não só em fugir, mas em ser encontrado.
As três
mulheres continuavam falando sem parar atrás dela, todas ao mesmo tempo. Liz já
nem tentava mais separar uma frase da outra quando ouviu o pigarro discreto de
Felipa. A parceira, sempre muito solene, dificilmente chamava a atenção sem que
houvesse um bom motivo. E bastou aquilo para fazer Liz erguer os olhos.
A policial
estava parada diante da bancada de madeira, encarando a tela do computador com
a expressão endurecida.
– Acho
que você vai querer ver isso – Felipa disse, movendo-se alguns centímetros para
que Liz se aproximasse.
No monitor do
computador havia dezenas de arquivos abertos ao mesmo tempo. Os links levavam a
fotografias, diagramas, linhas curvas desenhadas sobre rostos humanos e uma
sequência numérica repetida tantas vezes que se tornava impossível ignorá-la:
1, 1, 2, 3, 5, 8, 13, 21...
À primeira
vista, pareciam apenas anotações desconexas perdidas entre diagramas e palavras
circuladas em vermelho, mas Liz observou que os números estavam em todos os
lugares. Repetiam-se em nomes de arquivos abertos na tela do computador. Em
folhas diferentes de uma agenda toda rabiscada. Em anotações escritas nos
post-its.
Liz estreitou
os olhos. Aquilo não era aleatório, embora parecesse.
Sobre a
bancada, um caderno permanecia aberto ao lado do teclado. As páginas estavam
preenchidas por espirais desenhadas à mão, algumas delas atravessando
fotografias impressas do rosto de diversas pessoas. Linhas curvas atropelavam
olhos, bocas e maxilares até que os rostos deixassem de parecer humanos e
passassem a lembrar diagramas. Mirela parecia ter transformado pele em cálculo.
– O que é
isso? – Liz perguntou. Era a primeira vez que falava, desde que chegara ao
galpão.
As três
jovens finalmente se calaram. A mais baixinha desviou o olhar primeiro.
– É uma
pesquisa da Mirela – respondeu uma delas, um pouco hesitante – Ela estuda
padrões.
– Padrões de
quê? De... matemática? – Liz questionou. Era uma dúvida genuína, mas nenhuma
das jovens a respondeu.
Lá fora, uma
sirene ecoou ao longe, sinalizando a chegada do reforço e, com sorte, da
perita.
Liz desviou
os olhos das mulheres, passou a vista pelo computador e deslizou a atenção para
as fotografias presas à parede, num mural que era ainda mais confuso que a cena
do desaparecimento de Mirela.
Naquele
instante, pela primeira vez desde sua chegada, deixou de sentir que investigava
um sequestro. Parecia mais próxima de entrar na cabeça de alguém.
O relógio da
delegacia marcava 1h34 quando Liz finalmente se sentou. Com os braços apoiados
na frieza da mesa de metal, fez uma careta ao tomar um gole de café, no mínimo,
duvidoso. Absorta entre mil pensamentos, observou a fotografia, por cima da
borda do copo plástico. O porta-retrato havia se quebrado no galpão, mas a
imagem permanecera intacta. As quatro jovens apareciam lado a lado, próximas o
suficiente para sugerirem certo grau de intimidade.
Mirela estava
no canto, à direita. Era a única sorrindo.
Liz inclinou
a cabeça enquanto observava a fotografia mais de perto, com os olhos cansados,
embora atentos. Não se tratava de um sorriso exagerado, mas ainda assim chamou
sua atenção. Enquanto as outras exibiam sorrisos discretos e reservados, Mirela
parecia bastante confortável diante da câmera, como se soubesse de algo que as
outras ainda desconheciam.
Ela encarava
a lente como quem participava de uma piada que mais ninguém ria.
Do lado de
fora da sala, vozes femininas ecoavam pelo corredor da delegacia enquanto a
chuva começava a bater contra as janelas do prédio. A porta abriu-se logo
depois.
A primeira
testemunha entrou evitando encarar a fotografia sobre a mesa. Liz percebeu isso
imediatamente.
– Tainá
Ribeiro? – perguntou, mais por formalidade. Sabia quem era a interrogada, que
se sentou de cabeça baixa, acenando como resposta. Tainá era a primeira moça à
esquerda na foto junto com Mirela.
– Não
acredito que isso esteja acontecendo... – ela falou, esfregando os olhos com
força. Apesar do tom choroso, porém, não havia indício de lágrima em seu rosto
– Quando cheguei, o café dela ainda estava quente... Estamos perdendo tempo
aqui!
– Curioso,
seu depoimento no galpão foi diferente. Ao ser questionada, você inicialmente
disse que o local estava vazio fazia mais de uma hora quando chegou.
Liz deslizou
a fotografia pela mesa, posicionando-a entre as duas.
– Há
quanto tempo se conhecem?
Tainá demorou
para responder. Manteve os olhos presos nas próprias mãos, os dedos inquietos
arranhando a superfície da mesa fria.
– Uns
quatro anos.
–
“Uns”?
A jovem
ergueu a cabeça lentamente para poder para encará-la, mas logo desviou. Não
sustentou o olhar inquisitório de Liz nem por três segundos.
–
Quatro anos, sete meses e 15 dias. Aproximadamente.
Liz não disse
nada sobre a correção tão precisa, apenas assentiu, observando-a. Fez a
anotação sobre o detalhe em seu bloco de notas mental.
– Vocês
trabalham juntas naquele galpão?
– Mais
ou menos... A Mirela alugou o espaço já tem um tempo. Ela fotografa, edita
vídeos, faz umas pesquisas...
–
Pesquisas sobre o quê? – Liz indagou, analisando a hesitação de Tainá,
antes da resposta. Foi breve. Ainda assim, a policial percebeu.
–
Inteligência artificial. Reconhecimento facial. Comportamento humano,
essas coisas.
– Você
entende do assunto?
– Sou apenas
uma leiga – Tainá ergueu os ombros um instante depois de responder, num gesto
lento demais para parecer espontâneo.
Liz cerrou os
olhos, observando-a. A resposta saiu pronta, sem sombra de hesitação. Foi
respondida como se ela já conhecesse a pergunta. “Rápida demais”, pensou,
apoiando as costas na cadeira. “Como se já tivesse sido dita”.
A policial
manteve-se em silêncio por um momento, analisando o movimento dos ombros da
interrogada, a ponta de seus dedos inquietos e a maneira como evitava sustentar
contato visual por mais de alguns segundos.
Nervosismo
era comum durante os interrogatórios.
Performance
também.
–
Estranho...
– O quê? –
Tainá franziu a testa, encarando-a de maneira mais demorada agora. Durou cerca
de 3,5 segundos.
– Você fala
em “reconhecimento facial” com bastante naturalidade para alguém que “é apenas
leiga”.
– Era
impossível conviver com a Mirela sem ouvir sobre isso o tempo inteiro – Tainá
volta a erguer os ombros, agora de maneira mais natural.
A chuva
aumentou lá fora. No mesmo instante, Felipa entrou na sala. A policial se
posicionou atrás da parceira e manteve-se em pé, sem dizer uma palavra.
Liz
permitiu-se ficar em silêncio por alguns instantes, deixando o desconforto
crescer devagar entre elas. Tainá logo cedeu.
– É que... a
Mirela é meio obcecada por padrões – a frase saiu em tom de desculpa.
– Padrões?
– Sequências.
Proporções. Rostos. Simetria. Essas coisas.
Liz lembrou
imediatamente das espirais desenhadas sobre as fotografias espalhadas pelo
galpão. E, aparentemente, Felipa também, visto que seus olhos se contraíram por
um instante em uma microexpressão quase imperceptível, mas que Liz conhecia
bem.
– E isso
incomodava vocês?
– Uhum, um
pouco, às vezes, sim.
– “Vocês”? –
Liz insistiu, reforçando o plural.
– É, quero
dizer... as meninas. É só perguntar para elas, ué! – disparou, totalmente na
defensiva – Por acaso eu sou considerada suspeita pelo sumiço dela? Devo chamar
algum advogado?
– Você não
gostava das pesquisas dela? – Liz continuou, ignorando as perguntas de
propósito.
– Não é
isso...
– Então o que
é?
Tainá apertou
os lábios antes de responder. Deu uma fungada, parecendo só agora se lembrar de
que estava chorando lá fora, enquanto aguardava.
– É que a
Mirela começou a agir estranho nos últimos meses.
– Estranho
como? – Liz descruzou os braços e se apoiou na mesa, inclinando-se na direção
da interrogada.
– Como se
estivesse... escondendo alguma coisa da gente ou coisa do tipo – Tainá
respondeu, pensativa. E retomou, sem que Liz insistisse – Não sei, parecia que
ela estava sempre... sei lá, planejando algo. Eu realmente não sei, não sou
policial!
Liz desviou
os olhos para a fotografia sobre a mesa. Mirela continuava sorrindo sozinha.
– Vocês vão
acessar o computador dela? – Tainá então perguntou, provocando um suspiro
pesado de Felipa como resposta.
–
Provavelmente, sim. Por que quer saber?
– É que tem
coisas que ela não gostaria que vissem. Arquivos pessoais, fotos...
– Você não
quis ver essa fotografia quando entrou – Liz empurra a imagem em sua direção,
forçando-a a olhar.
Então Tainá
finalmente encarou a foto. Por um instante, Liz teve a impressão inquietante de
que ela não olhava para Mirela com saudade: olhava com receio.
O saco
plástico transparente e lacrado, estampado com o brasão da polícia de Ecila, deslizou
pela mesa da sala de interrogatórios até parar diante de Liz, às 2h01 da manhã.
Dentro dele, os óculos de Mirela refletiam a luz da delegacia em pequenos
fragmentos irregulares. A armação permanecia intacta, mas uma das lentes estava
partida ao meio, trincando o vidro numa espécie de asterisco.
Felipa cruzou
os braços após entregar o objeto, numa postura conhecida. Sua feição deixava
nítido o quanto estava cansada. Mas seus olhos ainda brilhavam, revelando que,
assim como Liz, ela não estava disposta a ir embora antes de entender o que
havia acontecido com Mirela na noite passada.
– Encontraram
na esquina atrás do galpão. Pelas fotos que vimos no computador, esses óculos pertencem
a Mirela, embora ela quase não apareça usando – Felipa falou, assim que Tainá
deixou a sala.
Liz observou os
óculos em silêncio.
Mais vidro
quebrado.
Demorou a
perceber que segurava o copo sujo de café com força demais. Havia anos desde o
último sequestro registrado na cidade.
– Algum
vestígio de sangue? – perguntou.
– Não, nada
aparente.
– E quanto ao
sangue no galpão...?
– Ainda segue
inconclusivo. Mas o resultado da análise logo sai.
Liz apertou
os olhos. A lente rachada deformava seu reflexo quando inclinava o saco sob a
luz. Seu rosto dividia-se em vários ângulos diferentes.
Identidade
fragmentada. Reconhecimento comprometido.
Além dos
óculos, Mirela tinha deixado muita coisa para trás, considerando tudo o que a
polícia havia encontrado no galpão, como o computador e as câmeras fotográficas
caras. Mas seu desaparecimento não se enquadrava nos padrões conhecidos de
sequestro, visto que ela (ou as amigas) ainda parecia controlar a própria
ausência. Liz então tinha o trabalho de provar que não se tratava de um crime
erradicado há quase uma década, e a resposta poderia ser encontrada com as
próximas interrogadas.
A porta da
sala abriu-se sem que pudesse seguir com a linha de raciocínio. A segunda
testemunha entrou na sala de interrogatórios sem pedir licença.
– Ai, ela
odiava ter que usar esses óculos... – Celina disse, num tipo de “boa noite” em
tom de deboche. Sua postura era autoritária, quase agressiva, com o queixo
apontado para o alto.
Liz ergueu os
olhos para encará-la, registrando mentalmente o verbo dito no passado. Falas
assim eram comuns em casos de desaparecimentos e sequestros, mas nada na
situação de Mirela era exatamente costumeiro, então o comentário imediatamente
lhe chamou a atenção.
– É mesmo? Odiava
por quê? – a policial questionou, vendo a mulher sentar-se sem cerimônia. Na
fotografia que permanecia disposta sobre a mesa, Celina aparecia posicionada entre
Tainá e Lorena.
– Porque a
Mirela dizia que as lentes distorciam as proporções dela – o tom de ironia
permanecia – Ela acreditava que os rostos humanos obedecem a padrões
matemáticos e os óculos quebravam a harmonia dela. Mas na verdade, só ficava
com cara de nerd, que ela sempre foi.
– Que tipo de
padrões matemáticos?
– Ai, sei lá.
Ela sempre vinha com um papo super chato sobre proporção áurea, simetria facial
e baboseiras do tipo – a mulher revirou os olhos, com desdém – Vivia falando
que a inteligência artificial aprende a distinguir as emoções faciais do mesmo
jeito que os humanos aprendem a confiar uns nos outros.
Liz
permaneceu quieta, apenas observando. Felipa também. Mas a interrogada,
conforme previsto, não foi capaz de se conter.
– É que ela simplesmente
via padrão em tudo. Rosto. Voz. Maneira de andar. Analisava até o tempo de
resposta durante conversas aparentemente casuais – Celina desviou os olhos para
os óculos quebrados dentro do saco plástico – Às vezes, nos fazia repetir algumas
frases olhando para a câmera durante longos e intermináveis minutos.
– “A gente”
quem?
– Eu. Tainá. Até
mesmo Lorena, às vezes.
Liz ergueu os
olhos bem devagar. Finalmente, várias peças daquele caso começavam a se
encaixar, todas ao mesmo tempo.
– Para quê? –
indagou, sem transparecer o que pensava.
– Para treinar
o “sistema” dela – a resposta soou como se Celina dissesse o óbvio.
– Que
sistema?
A interrogada
soltou uma risada curta, nervosa.
–
Reconhecimento comportamental. Bom, pelo menos era assim que ela chamava. Mirela
precisava treinar o sistema que criou com rostos reais. Expressões reais.
Microexpressões. Mentira, medo, desconforto... Aí nos fazia perguntas analisando
cada reação mínima – Celina voltou a revirar os olhos – Você também faz isso,
né? – perguntou de repente.
– Isso o quê?
– Analisa as
pessoas enquanto elas falam.
A postura de
Celina fez com que Liz se lembrasse imediatamente do interrogatório anterior. Dos
poucos segundos de contato visual. Da ausência de lágrimas no rosto de Tainá.
As interrogadas apresentavam comportamentos bem distintos. Quase opostos.
– Então vocês
trabalhavam para ela – a policial afirmou. Nem se deu ao trabalho de
respondê-la.
– Não... Quer
dizer, sim.
– Tainá disse
que não.
– Então ela
mentiu para você – Celina riu novamente, malvada – A Tainá mentiu para você! – repetiu,
sem rir dessa vez – Ela estava lá praticamente todos os dias. Nós duas estávamos.
E recebíamos pelas horas em que permanecíamos no local. Então pode ser
considerado um trabalho, sim.
– Além de
serem filmadas, o que mais vocês faziam?
– Testes.
– Que tipo de
testes?
A jovem
apertou os lábios antes de responder.
– A Mirela
fazia algumas perguntas enquanto registrava nossas reações. Depois comparava os
resultados com o comportamento da IA que estava desenvolvendo.
– E
funcionava? – Felipa perguntou, incomodada com o silêncio prolongado.
A jovem
soltou outra risada curta.
– Eu diria
que sim. Ela estudou tanto essas coisas todas, que conseguia perceber pequenas
mentiras rápido demais.
Liz deslizou
lentamente os dedos pela borda do saco plástico com os óculos quebrados.
– Inclusive
da namorada? – questionou, tendo a ausência de palavras como resposta.
Dessa vez, o
silêncio não foi só um detalhe. Celina ergueu os olhos rápido demais. E foi
exatamente assim que Liz descobriu sobre Lorena.
PARTE 4
Às 3h13 da
manhã, Rute entrou na sala de interrogatório com um envelope e uma expressão
que Liz já conhecia bem.
– Aquele
sangue encontrado no galpão era falso – anunciou.
Liz já
suspeitava. Faltava só a confirmação do laboratório.
– E o café? –
Felipa inquiriu.
– Limpo também
– a perita respondeu – Sem sedativos. Sem traços de droga. Sem veneno.
– Você acha
que o sequestrador montou a cena? – Felipa perguntou para Liz.
– Acho que...
não há vítimas nessa história – a policial respondeu, acompanhando Lorena
entrar na sala, cabisbaixa – Não do jeito que imaginávamos, pelo menos.
Lorena tinha
o semblante exausto, talvez porque já fosse tarde da noite, mas havia algo além
do cansaço. Talvez desgaste.
Ela evitou
olhar para Rute saindo, mas não agia como Tainá, que simplesmente não olhava
para nada; nem como Celina, que olhava demais para tudo. Era um meio-termo,
como não poderia deixar de ser.
Sem dizer
nada, Liz colocou sobre a mesa o celular de Lorena, recém-vistoriado. Ela demorou
para ver o que a tela exibia.
– Quando essa
foto foi tirada? – Liz perguntou. A imagem parecia simples: apenas duas xícaras
acomodadas em lençóis revirados.
– Uns dois
meses atrás – Lorena respondeu, surpresa com o interrogatório começando assim.
– Quem tirou
foi você ou ela?
Lorena
entrelaçou os dedos com força e respirou fundo.
– Ela.
Liz observou a
quietude que veio depois da resposta.
– Vocês namoravam
desde quando? – perguntou, finalmente.
Lorena
demorou a responder dessa vez.
– Há quase um
ano.
Liz tornou a observar
a fotografia, que dizia muito sobre a dinâmica delas. Certas pessoas confundem
intimidade com acesso irrestrito.
– Ela descobriu
sobre alguma traição? – Liz questionou, observando a linguagem corporal de
Lorena, que mantinha a cabeça baixa.
– A Mirela pegava
uma mentira antes mesmo de as pessoas sequer perceberem que estavam mentindo –
ela levantou os ombros, se justificando – Começou reparando em pequenas coisas
em mim: meu tempo de resposta, alguma mudança na voz, meu jeito de olhar...
Dizia que, quando alguém quebra um padrão, geralmente esconde algo – Lorena
voltou a erguer os ombros – Sempre falava que as emoções também seguem padrões.
Que medo, culpa, mentira... tudo deixa rastros matemáticos pelo rosto.
– E aí
vocês...
– Com a Tainá
e a Celina era diferente – Lorena continuou, interrompendo – Elas sabiam quando
estavam participando dos testes. Eu não.
A resposta
saiu seca demais para soar improvisada.
– Às vezes,
Mirela começava discussões sem motivo. Fazia perguntas aleatórias, mudava de
assunto no meio de uma conversa... Depois me observava, aguardando que eu
reagisse.
Lorena voltou
a apertar os próprios dedos.
– Demorei
para perceber que ela não estava conversando comigo; estava me analisando.
Ela soltou o
ar devagar depois da frase, como se admiti-la em voz alta tornasse tudo mais
real.
– No começo,
eu achava fascinante – confessou – Ela percebia coisas que ninguém reparava,
como mudanças mínimas de humor, inseguranças bobas, ansiedade... Depois começou
a ficar estranho, me sentia sempre vigiada.
Liz não a
interrompeu.
– Ela passou
a transformar qualquer silêncio ou hesitação em uma espécie de significado que
só fazia sentido para ela. Às vezes, eu mudava a maneira de responder só para
evitar que ela começasse a me observar daquele jeito. Mesmo assim, ela anotava
coisas sobre mim sem que eu soubesse. Horários. Mudanças de humor. Quanto tempo
eu demorava para responder mensagens. Uma vez encontrei meu nome numa pasta
chamada “desvios”.
Lorena soltou
uma risada curta, cansada.
– O pior é
que, depois de um tempo, eu já nem sabia mais o que era comportamento natural e
o que era reação calculada. Foi quando reconheci que estava num relacionamento
tóxico.
Liz respirou
fundo, absorvendo e organizando todas as informações recebidas. Desde o início
da investigação, cada uma das espirais desenhadas parecia meramente aleatória. Curvas
repetidas inúmeras vezes, crescendo sempre na mesma direção, numa tentativa
constante de provar que até o caos humano obedecia a uma lógica invisível.
Padrões.
Sequências.
Repetições.
Talvez, para
Mirela, pessoas fossem apenas variáveis mais difíceis de calcular. Porque ela
não analisava expressões faciais por motivos de obsessão estética. Tratava-se
de alguém dedicada a transformar meras emoções humanas em rígidos padrões
previsíveis.
– Qual o
papel de Tainá e Celina nisso?
– Eram apenas
cobaias... Mirela dizia que o cérebro confia mais rápido em rostos considerados
“harmônicos”. Mais previsíveis. Ela estava tentando ensinar isso para a IA dela
através de Celina e Tainá.
– Ensinar uma
máquina a reconhecer rostos bonitos?
– Não
exatamente bonitos – a interrogada corrigiu – Confiáveis.
A palavra
pairou no ar por um instante, carregada de significado.
– Segundo Mirela,
existe diferença – Lorena fez questão de reforçar o verbo utilizado.
– Que tipo de
diferença?
– De acordo
com ela, as pessoas bonitas chamam atenção. Já as pessoas confiáveis te fazem
baixar a guarda. E isso torna mais fácil qualquer tipo de manipulação.
O som da
chuva preenchia os pequenos silêncios entre uma frase e outra. Liz apoiou os
cotovelos sobre a mesa, interessada no relato.
– E onde você
entra nisso?
A jovem
desviou os olhos para o saco plástico contendo os óculos quebrados.
– Ela te descobriu,
de alguma forma? Te analisando, percebeu que você a traiu. Foi isso o que
aconteceu? – Liz insistiu, alguns segundos depois, incentivando Lorena a dar
uma resposta.
A jovem
fechou os olhos por um curto instante, mergulhada num silêncio interior.
– Não
exatamente. É que eu não cheguei a traí-la, entende? Foi só... um encontro.
– A quem você
acha que interessaria o sumiço de Mirela? – Liz indagou, observando uma
microexpressão brotar no rosto da interrogada.
– Além dela
mesma... você quer dizer?
A chuva
continuava batendo forte contra as janelas da delegacia. Felipa lentamente
descruzou os braços.
Finalmente, Liz
teve a certeza de que o desaparecimento de Mirela não era nenhum tipo de sequestro.
Agora só precisava encontrá-la.
FINAL
Às 5h08 da
manhã, o galpão parecia menor sem a presença das testemunhas. Sem as vozes
atropelando versões e sem policiais circulando, restava apenas a estrutura crua
do lugar e a luz fria ainda acesa sobre a bancada de madeira. Liz ficou alguns
segundos parada próximo à entrada, observando o silêncio quebrado apenas pelo
zumbido das lâmpadas de LED, recortando o computador abandonado e as espirais
desenhadas nas folhas espalhadas pela parede. Na primeira visita feita àquele
local, algumas (poucas) horas atrás, tudo parecera excessivo e bagunçado.
Agora, começava a enxergar método. E, pior: organização.
Liz respirou
fundo organizando mentalmente tudo o que havia sobre Mirela e seu
desaparecimento. A esta altura, sabia que não se tratava de um sequestro; sua
teoria era que Mirela apenas perdera o controle do próprio experimento. De si
mesma.
Ao contrário
de indícios de um crime, o que havia naquele galpão eram apenas sinais de alguém
que passara tempo excessivo dentro da própria cabeça. Fazia parte deste cenário
o café intocado, as luzes acesas noite adentro, os arquivos abertos
simultaneamente e as sequências numéricas repetidas à exaustão. Nada ali
parecia resultado de violência repentina. Parecia desgaste.
Mirela vinha
tentando transformar comportamento humano em lógica matemática. Ela pretendia prever
mentiras. Antecipar reações. Catalogar padrões emocionais. Mas pessoas não
funcionam como códigos estáveis e quanto mais ela tentava organizar o caos
humano, mais caótica se tornava.
Liz já tinha
visto aquilo antes. Obsessões prolongadas costumam produzir um efeito perigoso:
em algum momento, a pessoa deixa de interpretar padrões e começa a enxergá-los
mesmo quando não existem, num tipo perigoso de alucinação.
Talvez Mirela
tivesse ultrapassado essa fronteira há algum tempo e Lorena era a prova disso.
Liz analisou
novamente a mancha escura sujando o piso. Sem o tumulto das testemunhas, o odor
químico parecia ainda mais evidente. Ao agachar-se, observou que atrás de um
dos pés do sofá, escondido pela sombra, havia um pequeno frasco tombado. O
líquido avermelhado restante no interior tinha o mesmo tom de vermelho-sangue
da mancha no chão. No rótulo parcialmente desgastado, ainda era possível ler:
“pigmento marcador”. Levando o frasco consigo, caminhou até o computador ainda
ligado e começou a procurar pelo termo entre os arquivos abertos por Mirela.
Demorou pouco
para encontrar dezenas de registros relacionados à captura facial, rastreamento
de movimento e mapeamento de microexpressões. Algumas fotografias exibiam
pequenos pontos vermelhos distribuídos sobre músculos específicos do rosto
humano, formando curvas semelhantes às espirais espalhadas pelas paredes do
galpão.
O frasco provavelmente
rolou para baixo do móvel depois de algum tropeço. Não havia sinais de arrasto,
luta ou tentativa de limpeza. Apenas desordem.
Liz varreu o
galpão com os olhos em busca de algo que reforçasse sua teoria. Próximo à
bancada, uma câmera permanecia caída no chão, presa pelo fio do carregador. A
lente frontal estava rachada, com o vidro quebrado. Isso explicava o vidro
encontrado perto da mancha.
Foi então que
a hipótese inicial arquitetada durante os depoimentos ganhou força: e se nada
naquela cena tivesse sido planejado? E se o verdadeiro colapso aconteceu na
mente de Mirela muito antes de ela desaparecer?
Encostando-se
no balcão de madeira, a policial analisou novamente a sequência de números
espalhados pelo mural que, num primeiro instante, pareciam aleatórios. Não
demorou para perceber que havia uma progressão. Os números cresciam obedecendo
sempre ao mesmo intervalo irregular, repetindo uma estrutura que Liz já tinha
visto naquela madrugada, desenhada nas espirais espalhadas pelas fotografias
presas à parede, em formato de caracol matemático.
1, 1, 2, 3,
5, 8, 13, 21...
A percepção
veio devagar, encaixando peça após peça até finalmente ganhar nome.
Fibonacci.
Liz sentiu-se
incapaz de conter um arrepio silencioso. Agora não havia mais dúvidas de que
sua teoria estava correta. De repente, as espirais desenhadas entre as
anotações deixaram de parecer simples rabiscos. As curvas repetidas nas
fotografias, os diagramas presos à parede, os padrões distribuídos entre
arquivos e sequências numéricas... tudo obedecia rigorosamente à mesma
estrutura. À mesma lógica obsessiva.
Liz aproximou
o rosto da tela. Os números apareciam misturados entre nomes de arquivos,
anotações e abas do navegador de internet. A maioria seguia o mesmo padrão
matemático repetitivo, exceto por uma janela específica que, diferentemente das
demais, apresentava um comprovante de corrida por aplicativo, solicitada minutos
antes do telefonema acusando o desaparecimento de Mirela. Além de feita no nome
de Lorena, a corrida havia sido paga com o cartão de crédito dela. Sentindo o
estômago contrair, a policial verificou que o ponto de embarque ficava a poucos
metros de onde os óculos haviam sido encontrados. O destino da corrida, porém,
fez Liz prender a respiração: Hospital Municipal de Ecila.
Em sincronia
com as suas descobertas, Felipa telefonou, arrancando Liz de sua espiral
mental.
– A polícia encontrou
a Mirela. Ela deu entrada ontem à noite no hospital, com quadro de confusão
mental, mas apresentou outro nome: Lorena Lopes. Foi detida por falsidade
ideológica.
A chuva havia
diminuído quando Liz deixou o galpão. O céu começava a clarear devagar,
dissolvendo o azul escuro da madrugada sobre os prédios ainda úmidos da cidade.
O hospital estava
estranhamente silencioso, mergulhado em luzes artificiais. Mirela ergueu os
olhos devagar quando Liz entrou no quarto. Com o olhar perdido, um pouco
atordoado, ela parecia genuinamente incapaz de conseguir prever a reação de
alguém. Talvez esperasse acusação. Talvez desprezo.
Todavia, Liz
a observou com compaixão, sem dizer nada. Porque, naquele instante, não
enxergava uma criminosa. Na verdade, em algum nível desconfortável, reconhecia
naquela mulher parte da mesma obsessão silenciosa que guiava o próprio
trabalho: observar pessoas, interpretar desvios, procurar significado em
detalhes quase invisíveis. A diferença era que Mirela atravessara uma linha da
qual talvez não conseguisse mais voltar.
Debilitada naquela cama de hospital após uma séria crise de estafa que a levara a um colapso mental, Liz via apenas alguém que passara tempo demais tentando transformar pessoas em cálculos, até esquecer que humanos não cabem em padrões. Mirela, por sua vez, não parecia analisar nada. Apenas olhava para o vazio, incapaz de reconhecer-se no próprio reflexo.