Nani

 
Raquel nunca teve um bichinho de estimação. Ela era o tipo de pessoa que sempre me fazia rir, não importasse a história que contasse, e isso incluía os trágicos relatos dos bichinhos que ela não teve, ou que teve por um brevíssimo momento – incluindo o hamster na gaiola do quintal e a cachorrinha chamada Björk, que rolou no chão da cozinha. Por isso, no instante em que nos casamos, decidimos que adotaríamos juntas um cachorro. Para ser nosso filhinho, como um bom casal de sapatão. Nós formávamos um ótimo casal, modéstia à parte. De longe, dava para ver o quanto a gente combinava e, de perto, era ainda mais nítido o quanto a gente se gostava. E tínhamos tanto amor que dava para dividir. Era realmente muito farto, super possível de se compartilhar.
Isso nos levou a passar meses assistindo “O encantador de cães”, o programa de tevê. Aprendíamos sobre comportamento, adestramento... e fazíamos listas e mais listas de possíveis nomes, definíamos os brinquedos, as roupinhas, criávamos infinitos carrinhos em lojas virtuais... E nosso passatempo preferido nessa época era ler as biografias dos bichinhos resgatados, em páginas de redes sociais. Não sei se você já teve essa oportunidade, recomendo caso nunca tenha feito esse tipo de busca. Os animaizinhos, coitadinhos, têm a historinha deles registrada, o histórico, as condições em que foram resgatados, a personalidadezinha deles, tudo. Foram muitas noites assim, lendo histórias tristes da vida real, com grande potencial de final feliz. Assim como foram muitas outras noites enfurnadas dentro de casa, porque sempre fomos do tipo caseira, o que era um ensejo a mais para a gente ter um cachorro alegrando nossa casa. Iluminando ainda mais o nosso querido lar.
Como disse, Raquel queria um cachorro. Eu aceitei, é claro, cresci cercada de bicho, sei o quanto eles são companheiros, queridos, bons amigos. Mas sabia também do trabalho que eles dão, dos gastos que eles geram, do quanto demandam de atenção, mas pela Raquel eu faria tudo. Absolutamente tudo e ela nem precisava pedir mais de uma vez. Quer um cachorro? Bora, vamos adotar logo três.
E o interessante é que mesmo assim, quando vi a fotinho dela no site, imediatamente meu coração se aqueceu. Raquel queria um cachorro, isso é fato, mas quem quis a Nani fui eu. Porque a gente já tinha se escolhido, mesmo sem saber.
Durante todo o tempo em que ficamos casadas (foram pouco mais de cinco anos), Raquel e eu moramos num apartamento no Brás, centro de São Paulo, na rua que faz divisa com a Zona Leste. É uma região particularmente feia, muito cinza, com aparência meio de abandonada. E foi lá que a Nani chegou. Inicialmente com um Y no nome e um N a mais, devido à Super Nanny, da televisão, porque ela era muito protetora da irmãzinha, na ONG onde morava. A Nani coloriu o nosso mundo desde o primeiro minuto, filhotinha que era, com seus três meses de idade. Isso foi em janeiro do ano de 2012. Um recorte pontual da minha história que ainda não anunciava nada do que estava por vir – e que veio, de maneira dolorida e fatal.
Nani entendia coisas muito específicas sobre mim. Por exemplo, ela se animava quando eu colocava sutiã, porque aquele era o sinal de que eu iria comprar cigarro, momento do passeio dela por quadras desarborizadas. Ela também entendia que quando eu pegava o lixo, ela ia sair – no caso, só nas escadas do prédio, por onde ela descia e subia várias vezes, correndo enquanto eu completava o trajeto, como se aquilo fosse o melhor jogo do mundo. E o mais curioso é que ela nunca esqueceu. Mesmo depois de duas mudanças de endereço. Mesmo depois de eu parar de fumar. Mesmo depois do elevador substituir as escadas. Mesmo depois de eu nem usar mais sutiã. Tem coisas que ficam, sei lá.
Ela adquiriu novos hábitos e outras manias, como querer passear todo dia pontualmente às cinco da tarde, como se tivesse um relógio apuradíssimo. Também cultivou o costume de deitarmos juntas depois do almoço, para descansar a pança da comida que comíamos igual. Sua preferência era por abóbora e batata-doce e arroz e feijão. E macarrão, em especial com molho branco.
Nani me recepcionava quando eu chegava em casa, e eu avisava sempre que ia sair, fosse para correr, para treinar ou para ir até a casa da vizinha, que a mimava de todas as formas que você possa imaginar. Nani me dava beijinho de bom dia, de boa tarde, de boa noite... sempre estava disposta a me beijar, até o último suspiro. Também tinha disposição de me seguir, para onde quer que eu fosse no nosso pequeno apartamento: me acompanhava no café, no banho, na rega das plantas. O som de suas patinhas no chão era a música infinita que sempre demonstrava que nossa convivência era real. Que a gente existia, juntas.
Mas no último sábado, ficou um silêncio diferente. A casa continua aqui. Eu também. Mas tem um espaço que não é físico... e que, ainda assim, falta. Ela foi embora sem preparação, sem ensaio, sem aquele tipo de “adeus” que a gente imagina que vai ter um dia. Igual à humana preferida dela, que nos deixou numa manhã de terça-feira, em julho de 2015, sem chance de despedida.
Agora eu sou tudo o que restou de nós três.


Essa crônica pode ser ouvida: ouça caribu.


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