Conversa entre nós
Comecei a estudar Matemática Discreta. Eu, que já enfrentei (e venci!) Matemática Básica e Cálculo I, agora me aventuro pelos caminhos da lógica. Caminhos bem ilógicos, devo dizer, para alguém com uma cabeça tão... de Humanas quanto a minha. Mas encaro porque não tenho opção, desde que decidi me levantar e enfrentar novos desafios que a vida consequentemente me apresenta até aqui. E decidi escrever essa crônica só para te lembrar que você é capaz de muita coisa, mesmo que não acredite, mesmo que se sabote, mesmo que ache que já está “velha demais para isso” – seja “isso” o que quer que for.
Ao longo da minha jornada, nestes 43 anos pisando nesta Terra, experimentei muitas situações envolvendo pequenos e grandes dilemas, pequenas e grandes conquistas, e o que percebi de maneira mais latente foi que tenho o potencial de ser tanto minha heroína quanto minha vilã. E a descoberta mais desconfortável de todas merece ser compartilhada: eu percebi, depois de muita porrada, dedo no cu e gritaria, que não existe um inimigo fixo, tampouco existe um “alguém” lá fora que dificulta tudo só de pirraça. Sim, sabemos que o mundo é cheio de gente escrota, tem muitas pessoas ruins por aí (e por aqui), mas na grande maioria das vezes, o que realmente nos trava fala com a nossa própria voz. Usa os nossos argumentos. E como só a gente sabe quais são nossos maiores medos, são justamente essas as armas que usamos contra nós – seja de maneira consciente ou não (não importa).
Eu já me desacreditei muito nessa vida. Muito, muito mesmo! E isso me levou a dizer vários “nãos” ao longo da minha existência. Alguns por medo, outros por cansaço, e muitos por simplesmente acreditar que eu era burra demais para conseguir alguma coisa; limitada demais para vencer, qualquer que fosse o desafio. E como ficar parada é infinitamente mais confortável do que me mexer, acabei me acomodando. Só que o grande perigo disso é que a gente se acostuma até com o que não faz bem. Nos adaptamos até com o que nos faz mal, com o que nos é prejudicial. É como uma pedra no sapato que a gente para de se importar depois que a bolha vira calo.
Mas aí cheguei naquele fatídico ponto que vez ou outra nos assola: quando a água bateu na minha bundinha, percebi que não era só uma questão de desacreditar; eu percebi, depois de tanto insistir em resistir, que viver não precisa ser sinônimo de sobreviver. E que o maior impeditivo para voar era a minha mania de me podar; era o meu costume (quase um hábito, já) de só lidar com as consequências da minha não ação – que, obviamente, gerava desafios que eu também não escolhia, mas que precisei encarar, de guarda baixa, pelo único motivo de não ter mais espaço para recuar.
Isso é cansativo. Porque mesmo querendo, a vida não pausa momento algum para que a gente possa descansar. O tempo não para, mesmo se você implorar. E foi em meio ao cansaço que aprendi que coragem não é aquela coisa bonita e cinematográfica que nos vendem desde que somos criancinhas. Coragem, na maior parte dos dias, é até um pouco sem graça porque se enfrentar não é um ato único. Não é uma grande cena, isolada dos dias. Coragem é um hábito. É um treino silencioso de escolher, diariamente, várias e várias vezes, simplesmente não se abandonar. E se acolher é bastante trabalhoso! Exige dedicação constante.
Eu sei que você possivelmente não decidiu voltar para a faculdade depois dos 40. Provavelmente também não ficou viúva aos 30 e poucos e foi forçada a se reconstruir, mas acredito que as suas batalhas também são válidas e te afetam tanto quanto as minhas me atingem. E por isso, pode ser que você esteja se sentindo exatamente no meio de um desses momentos. Pensando se ainda dá tempo, se ainda vale a pena, se você é capaz, forte e inteligente para se transformar. Para se lapidar. Para evoluir e progredir.
Então deixa eu te dizer uma coisa, com a calma e a paciência de quem já duvidou de si mesma muitas vezes: dá tempo, sim. Não porque o mundo vai facilitar, ou as pessoas vão te ajudar, mas porque você pode decidir não desistir de você.
Não existe isso de idade para recomeçar, para aprender algo novo, para mudar de direção ou tentar de novo. Existe, no máximo, o limite que a gente aceita como definitivo. E olha… a gente aceita certas coisas rápido demais.
Se hoje você só conseguir dar um passo, que seja esse: não acredite em tudo o que o medo te conta. Ele fala alto, mas não fala a verdade inteira. Você é maior do que sua versão que tem medo de agir.
Dito isso, vencer na vida não é sobre chegar a algum lugar grandioso, mas sim sobre esse movimento contínuo de não se deixar para trás. De não largar a própria mão, ainda que se sinta esgotada e convicta de que parar seja a solução.
E talvez seja isso que eu esteja aprendendo, no meio de tantas proposições e símbolos que ainda não fazem muito sentido para mim: nem tudo precisa estar completamente resolvido para que a gente continue. Às vezes, basta não abandonar a própria lógica no meio do caminho.
Boa sorte!
Essa crônica pode ser ouvida: ouça caribu.