Quarenteitrês


Quarenteitrês. Assim, como quem acorda numa manhã de novembro (outrora “típica manhã de novembro”, mas os sinais dos problemas climáticos são tão claros quanto a manhã desse 23, então é provável até que não tenhamos nem chuva hoje). Em alguns (poucos) piscares de olhos, venci a barreira dos 40 e conquistei os três primeiros anos assim: quase sem perceber, mas sem me distrair, encarando um dia, depois o outro, com o pé fincado o máximo possível no presente, e atenta, muito atenta. Também um tanto ocupada e com uma parcela considerável de dor. Física, principalmente.

Minhas personagens não me chamam mais. Cansaram, coitadinhas, satisfazendo-se por ora apenas com as migalhas do capítulo final de um livro que já tenho escrito e lançado só na minha cabeça. E as ruas... bom, as ruas ainda clamam a minha presença, e se saio é sempre contra a vontade do meu corpo. Especificamente do meu joelho, que se perdeu entre as esquinas na última meia maratona, em junho. Pois é, imagine só, quase um semestre inteiro sem poder correr. Um verdadeiro castigo para quem dizia que “parar não é opção”. Às vezes é, quando poucos metros já são suficientes para te abater.

Do meu último aniversário para cá, basicamente foi isso que mais mudou. Eu, no caso. Tudo se transformou mais ou menos no dia em que descobri que o meu joelho fala. E, pior que isso: ele tem opinião. Ele acha que qualquer subida é o Himalaia e ameaça travar quando a velhice chegar. Então parei de correr. Não entro mais nos desafios do aplicativo, não acumulo mais longas quilometragens semanais, perdi até a marca de sol que me fazia parecer estar sempre com roupa de corrida, mesmo estando sem nada. Isso levou embora uma alegria muito específica que me fazia companhia desde os meses que antecederam minha entrada nos 40 anos. E faz parecer que aquela versão minha, a que corre e é feliz por correr, está agora sentada num banco no canto do meu inconsciente, entre as minhas várias personalidades que até hoje se revezam no comando de mim. Ela está lá na fila. Quer dizer, eu estou.

Recentemente disseram que sou muito reclamona. Eu sou mesmo e acho que com o tempo estou ficando mais e mais: mais intolerante e ainda mais irritadiça. Mas é que a vida, veja bem... a vida, que não é um morango (está mais para um limão espremido no olho do cu), me testa toda hora! Quando não é uma coisa, é outra, e são sempre questões muito cabeludas, que levam embora partes importantes da minha sanidade. Quem fica bem assim? Me diz? Toda dodoizinha da cabeça, coração estropiado e agora joelho arrebentado?

Mas hoje é meu aniversário, hoje é dia de exaltações. Deixemos os problemas para 2026 (quem fez, fez, galera, quase dezembro, já).

O que eu dizia é que bem no momento que o meu joelho disse “para”, a minha cabeça disse “vai”. Sabe?, como se diante de uma parte que trava a outra fosse imediatamente obrigada a se movimentar? Ainda que sentada, diante de uma tela cheia de números, frações, dízimas e decimais? Porque foi exatamente isso que aconteceu. No meio do caos ortopédico, atlético, emocional e existencial, concluí meu primeiro semestre na faculdade de TI, quase dez anos depois de me formar em Jornalismo. Fechei com 10 de média na disciplina de matemática básica.

E o curioso é que esse movimento de voltar a estudar tem gerado um alívio estranho. Não sei se posso chamar de fuga, renascimento ou pura teimosia, mas é como se a parte da minha cabeça, que sempre esteve inquieta, agitada, tivesse encontrado um brinquedinho novo. Um brinquedo cheio de lógica, padrão, problemas para resolver, bem diferentes dos dilemas da vida real, porque são problemas que realmente têm solução. A maioria eu acerto até o resultado!

De repente, aprender virou uma espécie de trilha alternativa. Uma que meu joelho aprova, inclusive. Ele adorou essa novidade de “fazer exercício intelectual”, porque exige zero impacto e, de vez em quando, dá até para pôr uma bolsa de gelo enquanto estudo pensamento computacional ou matemática. E tem sido bonito, sabe? Não bonito tipo o pôr ou o nascer do sol, que eu só via quando estava lá fora, mas bonito no sentido de olhar para dentro e dizer: “olha só, eu consigo fazer isso”. “Eu sou capaz disso”. Porque eu sou.

Uns anos atrás, ter que mudar de planos assim, tanto abrindo mão da corrida quanto tendo que aprender a fazer conta de divisão, eu me lamentaria daqui até o ano que vem. Acho que nem teria estudado direito, por causa do tempo que eu perderia só escrevendo a respeito. Mas aqui no auge dos meus recém-completos 43, eu só sorrio e aceno. Acato e enfrento. Domino e venço. Exceto se tiver que correr.

Hoje não sou nada do que imaginava que seria, quando era mais nova e vislumbrava minha vida no futuro. Em partes porque ainda sou a mesma, embora num corpo mais calejado, mas principalmente porque aprendi que a vida não é linear, nem cronológica, nem justa, mas às vezes surpreende, mesmo assim. Surpreende com um curso novo, um livro caro em PDF, uma professora bonitona, um colega de turma que poderia ser meu filho, uma prova que eu juro que vou reprovar e acabo tirando 10. A vida surpreende apresentando versões de mim que eu nem sabia que estavam na fila para me suceder. Surpreende com a descoberta de que se pode, sim, começar de novo depois dos 40, ainda que a partir de uma dor que transformou todo o resto.  

Para mim isso é o que “quarenteitrês” significa: continuar. Não desistir, mesmo torta, cansada, irritada, sem correr e com um joelho cheio de vontade. Ainda que no modo econômico de energia. Ainda que à base de analgésico, café e coragem requentada.

Feliz aniversário para mim!


Essa crônica pode ser ouvida: ouça caribu.


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